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Pegada ecológica e déficit ambiental

Modelos atuais de produção e consumo esgotam capital natural

Homem caminha sobre o maior lago artifical da Ásia, o Upper Lake, em Bhopla, na Índia, está seco
Jovem caminha sobre o maior lago artifical da Ásia, o Bhojtal, na Índia

O capitalismo é o sistema econômico que mais desenvolveu as forças produtivas da humanidade e mais estimulou o crescimento da população e da economia. Como disse Karl Marx e Friedrich Engels, no manifesto comunista: “A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário”.

Entre o ano 1 da Era Cristã e o ano de 1776 a população mundial passou de cerca de 225 milhões de habitantes para 780 milhões de habitantes, um crescimento de 3,5 vezes. No mesmo período a economia mundial cresceu 4,5 vezes, segundo dados de Angus Maddison. Em quase 18 séculos, o crescimento da renda per capita foi de apenas 1,3 vezes ou 30%. Assim, antes do capitalismo, a renda per capita mundial estava praticamente estagnada e a esperança de vida ao nascer da população mundial girava em torno de 25 anos.

Porém o quadro mudou no último quartel do século XVIII. O ano de 1776 pode ser considerado um marco fundamental do início da hegemonia capitalista, pois foi o ano em que Adam Smith publicou o livro “A Riqueza das Nações”; as treze colônias da Nova Inglaterra declararam a independência dos Estados Unidos da América; e entrou em funcionamento a máquina a vapor, aperfeiçoada por James Watt, que marcou a passagem da manufatura para a indústria e deu início ao uso em larga escala dos combustíveis fósseis.

Mundo acelerado

Com a Revolução Industrial e Energética o mundo entrou em uma fase de aceleração. Em 240 anos, de 1776 a 2016, a população mundial cresceu 9,5 vezes e a economia global multiplicou por cerca de 125 vezes. O crescimento anual da população ficou em torno de 0,9% ao ano e a economia em torno de 2% ao ano. Sendo que o período de maior crescimento demoeconômico ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial, quando a população passou de cerca de 2,5 bilhões de habitantes para quase 7,5 bilhões de habitantes em 2016 e a média anual de crescimento do PIB ficou acima de 3,5% ao ano. O consumo de matérias primas e de recursos naturais cresceu de maneira exponencial. A despeito das desigualdades, houve uma melhoria geral das condições de vida, redução das taxas de mortalidade e a esperança de vida ao nascer da população mundial ultrapassou o limiar dos 70 anos.

Porém, o progresso humano ocorreu concomitantemente ao regresso ambiental. Na história da humanidade, o capitalismo se transformou no sistema com maior impacto negativo sobre o meio ambiente e com os maiores efeitos destrutivos sobre a base ecológica do Planeta.

Infografia sobre Pegada Ambiental

Como mostra a escola da Economia Ecológica, o crescimento das atividades antrópicas, no contexto do fluxo metabólico entrópico, está degradando a vida no Planeta. Existem várias análises e metodologias mostrando a gravidade da saúde geral da “Mãe Terra”: 1) Estudo publicado na Revista Science (janeiro de 2015), do Stockholm Resilience Centre, mostra que quatro das nove fronteiras planetárias foram ultrapassadas. Duas delas, a mudança climática e a integridade da biosfera, são o que os cientistas chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o sistema Terra a um novo estado que pode levar a civilização ao colapso; 2) a humanidade, na época do Antropoceno, está provocando a perda, em massa, da biodiversidade, como mostra o livro da jornalista Elizabeth Kolbert: ”The Sixth Extinction”; 3) O mundo está ficando mais quente e rompendo com a estabilidade climática do Holoceno, conforme mostram diversos estudos da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que alertam para os riscos irreversíveis do aquecimento global e das mudanças climáticas. O mês de fevereiro de 2016 foi o mais quente já registrado, ficando 1,35 grau acima da média do século XX. Lembrando que o Acordo de Paris, da COP-21, pretendia manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 grau até 2100.

Uma outra metodologia que revela a sombria situação ambiental é apresentada pela Global Footprint Network que apresenta duas medidas úteis para se avaliar o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade do “capital natural” do mundo. A Pegada Ecológica serve para medir o impacto das atividades de produção e consumo da economia sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza. A unidade de medida é o hectare global.

A Pegada Ecológica mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta no início da década de 1970. De lá para cá o déficit ambiental vem aumentando a cada ano. Em 2012, o mundo tinha uma população 7,1 bilhões de pessoas, com uma pegada ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) e uma biocapacidade per capita de 1,73 gha, conforme anunciou a Global Footprint Network, em atualização dos dados em março de 2016.

O mundo tinha em 2012 uma biocapacidade total de 12,2 bilhões de hectares globais, mas tinha uma pegada ecológica total de 20,1 bilhões de hectares globais. Portanto, a pegada ecológica ultrapassava a biocapacidade em 64%. Ou dito de outra maneira, o mundo estava consumindo o equivalente a 1,64 planeta. Portanto, a população mundial vive no vermelho e provoca um déficit ambiental que cresce ano a ano. Isto é como dizer que a humanidade está atolada no uso do “cheque especial”.

Sinais de esgotamento

Evidentemente, este caminho é insustentável. O capitalismo só consegue manter seu modelo de produção e consumo devido à herança acumulada no passado no subsolo e nos ecossistemas. Ao avançar no processo de acumulação de capital e utilizar montantes crescentes de energia e biomassa, o atual sistema produtivo está esgotando ou tornando caras as reservas de combustíveis fósseis, que são fontes energéticas criadas a milhões de anos pela decomposição de material orgânico. A queima desta herança energética, reduz os estoques de hidrocarbonetos do subsolo e aumenta a emissão de gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global.

O sistema de produção e consumo desregrado também gera um processo de vandalização do meio ambiente ao provocar o desmatamento, a erosão dos solos, a sobreutilização das fontes de água limpa e dos aquíferos, a redução dos estoques de peixe, a acidificação dos oceanos e a degradação dos ecossistemas. Tudo isto contribui para o crescente déficit ambiental.

A humanidade precisa sair do vermelho do déficit ecológico e voltar para o verde do superávit ambiental, resgatando as reservas naturais, para o bem de todos os seres vivos da Terra.

Evidentemente, são as parcelas mais ricas da população que mais se beneficiam do processo de concentração da riqueza capitalista e mais contribuem para o aumento da pegada ecológica. Mas mesmo que houvesse uma justa distribuição da riqueza mundial, a pegada ecológica média superaria, mesmo assim, a biocapacidade média global. A situação é tão grave que mesmo numa situação hipotética de eliminação da pegada ecológica dos países ricos, o resto do mundo ainda estaria em déficit ecológico.

Portanto, para evitar o colapso ambiental é preciso reduzir a pegada ecológica mundial. Para tanto, será necessário, por um lado, estabilizar rapidamente o tamanho da população e, por outro, diminuir o impacto do padrão de consumo médio dos indivíduos, famílias e empresas. A humanidade precisa sair do vermelho do déficit ecológico e voltar para o verde do superávit ambiental, resgatando as reservas naturais, para o bem de todos os seres vivos da Terra. Não dá para continuar adotando o princípio capitalista de promover o desenvolvimento humano às custas do retrocesso da base ecológica que sustenta a vida no único planeta galático que, comprovadamente, possui vida no Universo.

Escrito por José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. Professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE.

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