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Bento Rodrigues: ocupação simbólica

Atingidos pela queda da barragem pedem pressa na reconstrução da vila

Bento Rodrigues. Foto de André Teixeira
Cronograma de reconstrução de Bento Rodrigues está atrasado, como todas as obras de mitigação da Samarco. Foto de André Teixeira

Antecipando os protestos previstos para ocorrer no sábado, quando completa um ano do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, moradores do primeiro vilarejo atingido pela lama da Samarco ignoraram a chuva fina e, com enxada na mão, ocuparam simbolicamente a nova Bento Rodrigues. Incomodados com a lentidão do processo de reassentamento definitivo dos atingidos pelo desastre da Samarco, membros da comunidade capinaram a entrada do lote comprado pela empresa da Arcelormittal.

Após análises prévias envolvendo 15 áreas, o processo de escolha afunilou para três terrenos. Foi a própria comunidade que optou por Lavoura, um local onde a plantação de eucalipto predomina na paisagem. A área tem 370 hectares e corta a estrada que liga o povoado de Bento Rodrigues a Mariana, onde estão vivendo, temporariamente, os moradores da primeira vila atingida pela rota do vazamento de lama de rejeitos da Samarco, controlada pela brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton.

Atingidos em nova Bento Rodrigues. Foto de André Teixeira
Moradores de Bento Rodrigues capinam o terreno onde serão reassentados os atingidos pelo desastre da Samarco. Foto de André Teixeira

 “A Samarco só não atrasa as obras necessárias para voltar a operar”, critica Manoel Marcos Muniz, que, nascido e criado em Bento Rodrigues, aposentou-se, em 2013, após passar a vida como operador das bombas do mineroduto da Samarco, na região.

A Samarco só não atrasa as obras necessárias para voltar a operar

Manoel Marcos Muniz
morador de Bento Rodrigues

Com a escolha do terreno feita, Manoel acreditou que a reconstrução começaria imediatamente. Só que não. A previsão para a aprovação do projeto arquitetônico e urbanístico era em setembro – o cronograma está atrasado, assim como todos os projetos de mitigação da Samarco. A última data informada para entrega das chaves é meados de 2018. À medida que se aproxima o dia 5 de novembro, cresce o sentimento de insatisfação em relação à Samarco e à Fundação Renova, entidade responsável pela condução de um conjunto de ações de reparação e recuperação das áreas afetadas, e que administra uma verba bilionária.

Após acordo firmado em março último pela mineradora, governos federal e de Minas Gerais e Espírito Santo, a Samarco tem de desembolsar R$ 2 bilhões, neste ano, em medidas para fazer frente à tragédia. Mais R$ 1,2 bilhão no próximo ano e outros R$ 1,2 bilhão, em 2018. O desastre da Samarco matou 19 pessoas – 14 delas funcionários da própria empresa – e provocou uma destruição ambiental que se estendeu pelo Rio Doce, passando pelo litoral capixaba e chegando ao oceano Atlântico.

Direitos violados

Manoel, assim como a maioria de seus vizinhos, perdeu tudo com a enxurrada de lama após o rompimento da barragem. Conta, com lágrimas nos olhos, sua perplexidade ao lembrar dos inúmeros treinamentos que foi obrigado a fazer para seguir os procedimentos de segurança impostos internamente pela Samarco: “Eu confiava na empresa”. Com a sensação de estar sendo “apunhalado pelas costas”, Manoel ainda está sendo obrigado a “brigar” pelos seus direitos.

Por ter dupla moradia – ele tem um imóvel em Mariana –, não teve direito a casa alugada pela empresa para morar. Manoel, no entanto, requer o equivalente ao valor de um aluguel, já que a enxurrada de lama levou sua chácara e ainda matou parte dos seus animais. Ele está brigando na Justiça, mas, até agora, depois de três audiências, não ganhou nada, nem mesmo os R$ 20 mil de antecipação de uma futura indenização – dos quais a metade a empresa está pleiteando descontar no futuro. Por enquanto, Manoel está recebendo apenas o auxílio de um salário mínimo mais 20% por dependente e uma cesta básica.

Alexandre Vieira, morador de Bento Rodrigues. Foto de André Teixeira
Alexandre Vieira, morador de Bento Rodrigues, estava construindo uma pousada com 12 quartos. Foto de André Teixeira

Por estar na parte alta de Bento Rodrigues, a casa em construção de Alexandre Juliano Vieira e da esposa Janaína Cecília não foi levada pela lama, mas o sonho do casal está enterrado sob os destroços do povoado. Eles planejavam investir numa pousada com 12 quartos. “Hoje vivo para a Samarco”, conta Alexandre que, junto com a mulher, passa o dia brigando para garantir seus direitos na Justiça, assim como Manoel.

Por morarem em área rural, costumavam pagar R$ 50,00 pela conta de luz, em Bento Rodrigues. Desde que mudaram-se para Mariana, onde moram em uma das casas alugadas pela Samarco, a conta triplicou. Passou para R$ 150,00. O casal brigou muito para garantir o direito de pagar apenas o valor que desembolsava em Bento Rodrigues. E venceu a luta na Justiça. A diferença do valor da conta terá que ser paga à Cemig pela Samarco. Alexandre e Janaína comemoraram a pequena vitória, que, desde então, foi estendida a todos os atingidos que vivem hoje em Mariana. “A briga agora é por um indenização justa”, diz Alexandre, com voz firme, mas os olhos marejados.

Preconceito

Vivendo como exilados ambientais na vizinha Mariana, os moradores de Bento Rodrigues começam a sentir o peso de serem identificados como “aproveitadores”. Na escola, seus filhos são chamados de “pé de lama”. Às vésperas da tragédia completar um ano, passaram a ser alvo de olhares enviesados e de discriminação por onde passam, seja na farmácia, no supermercado, na pracinha da cidade.

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