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Quem deixou a festa continuar?

Na celebração do descaso, um festival de perguntas sem resposta

Acidente com o carro alegórico da Unidos da Tijuca deixou 12 feridos. Foto Clever Felix/Brazil Photo Press
Acidente com o carro alegórico da Unidos da Tijuca deixou 12 feridos. Foto Clever Felix/Brazil Photo Press

A julgar pelo que se lê nesta terça-feira de Carnaval, não há razão para maiores preocupações. Foi tudo obra do acaso, uma grande infelicidade. As palavras do carnavalesco da Unidos da Tijuca, Mauro Quintaes, são tranquilizadoras e resumem o espírito: “Infelizmente, cedeu a parte central do carro. Mais um acidente na Sapucaí. Mas a Tijuca é muito maior do que isso”. É como se dissesse: “Esquenta não, uma pena, essas coisas acontecem. O Carnaval é muito maior do que isso e tem que continuar”. Será? A que preço?

Infelizmente, cedeu a parte central do carro. Mais um acidente na Sapucaí. Mas a Tijuca é muito maior do que isso

Mauro Quintaes
Carnavalesco da Unidos da Tijuca

Essa é exatamente uma das dúvidas que persiste: quem deixou a festa continuar?  Por quê? Em dois dias de desfile, foram 32 pessoas feridas: 20 no domingo, imprensadas por uma alegoria desgovernada, e 12 na segunda, depois que a estrutura de um carro alegórico da Unidos da Tijuca cedeu. Quem foi a “autoridade” que decidiu manter a evolução e esqueceu a perícia? Quem se preocupou com a harmonia e atropelou a lei? Não se trata, necessariamente, de buscar culpados. Mas identificar os responsáveis. Quem tomou a decisão? Quem cuida da maior festa popular do planeta?

Apontar o dedo para os bicheiros que comandam a Liga das Escolas de Samba (Liesa) pode ser uma boa aposta.  Afinal de contas, eles mandam e desmandam no sambódromo há muito tempo.  Por falar em mandar, carro alegórico sofre vistoria antes de entrar na avenida? Eles pagam IPVA? Que tipo de carteira de habilitação é exigida do condutor do veículo? Mas será que o pessoal da contravenção decidiu bancar  essa conta sozinho?

No desfile da Portela, as menções involuntárias ao sofrimento que marcou o segundo dia de festa. Foto de Clever Felix/Brazil Photo Press
No desfile da Portela, as menções involuntárias ao sofrimento que marcou o segundo dia de festa. Foto de Clever Felix/Brazil Photo Press

Onde estava o ausente prefeito Marcelo Crivella nessa hora? Ele participou da decisão? Se não entregou a chave da cidade para o fino Rei Momo, talvez a responsabilidade seja dele. Foi eleito para isso também. Mas, a rigor, foram dois acidentes de carro. E o pior, transmitidos pela televisão para o mundo todo. Acidente de carro, como todos sabem, tem que ter PM, perícia, registro de ocorrência etc. Então a culpa talvez seja do governador Pezão. Ele já pagou os salários atrasados da corporação?

No entanto, há quem diga que a palavra final foi da TV Globo, que detém os direitos exclusivos de transmissão do desfile. Ou mesmo dos patrocinadores. Se parasse tudo, a fe$ta não seria tão boa. Será que foi uma mistura de tudo isso? Faltou autoridade ou sobrou autoridade? Os otimistas de plantão também têm o seu lugar de fala, e acreditam que prevaleceu o bom senso. O que fazer com os 70 mil espectadores que pagaram caro para ver o desfile?  E todos os componentes das escolas? E os salgadinhos dos camarotes?

O problema é que não foi só mais um acidente na Sapucaí, como disse o carnavalesco. Quem tiver o trabalho de subir no Carvalhão – guindaste que ajuda a botar os destaques no alto dos carros alegóricos – e observar a festa do alto, verá que o problema é antigo e vai muito além dos acidentes de domingo e segunda. As escolas que fazem a festa continuam sendo comandadas por bicheiros, traficantes e milicianos. As normas de segurança deixam muito a desejar. O histórico Canal do Mangue segue emoldurando a festa, fétido, com suas toneladas de esgoto sem tratamento. Crianças, jovens e velhos, às margens da festa, lembram a vida real e faturam uns trocados catando as latinhas de alumínio. Enquanto isso, prefeitos e governadores fingem que não é com eles. Afinal de contas, a Quarta-feira de Cinzas está chegando e o Estandarte de Ouro é da Mangueira.

Um Comentário

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  1. Primeiro a provocação: por que a idéia de parar a festa só apareceu depois do desabamento na poderosa Unidos da Tijuca, três vezes campeã nos últimos anos e não no atropelamento da Tuiuti, sempre candidata a cair?? Não houve alma carnavalesca sugerindo que Salgueiro e Beija Flor não tinham condições de desfilar depois do desastre na Tuiuti: 20 feridos, quatro em estado grave.

    Depois, com a tranquilidade de quem já dormiu e pensou.
    Procurar culpa é bobagem porque são todos culpados.
    Menos os espectadores que pagaram para ver a festa. Portanto, sim: o show tem que seguir.

    Sobre culpas: a principal é da falta de autoridade pública e do despreparo policial. Houve um acidente – de certa forma previsível numa festa deste tamanho. Os bombeiros, por exemplo, lá estavam e fizeram seu trabalho: inclusive, sem interromper a festa. É totalmente possível fazer uma perícia rápida no local do acidente e, depois, mais detalhada no fim do desfile. Mas, consta, a.pericia no carro da Tuiuti só foi feita 4 horas depois.

    No caso da Unidos da Tijuca, o mais razoável seria parar o desfile, tirar as vítimas (o que foi feito pelos bombeiros) e o carro (para perícia). Depois os organizadores resolviam o rebaixamento. Mas, sim: o desfile devia atrasar mas continuar.

    O que nos leva a outro problema de 30 anos na passarela: área de escape. Os organizadores deviam assistir a temporada de F1 inteira para aprender. O que nos leva a outra lição da Fórmula 1: os bombeiros agiram rápido, ambulancia estava lá mas levou 20 minutos para chegar ao Souza Aguiar que é muito perto. Ou seja, tem que ter um via aberta para socorro E helicóptero para casos extremos.

    Sobre aquela ação de parar o desfile da Tijuca, retirar o carro e.recomeçar, era preciso alguém que tivesse autoridade e responsabilidade pública o que é demais para pedir a empresários brasileiros em geral, de negócios lícitos ou ilícitos. Não sei.o que faria o ex-prefeito Eduardo Paes mas tenho certeza absoluta que ele estaria ali para participar da decisão.

    E a porrada nas escolas: pelo que pude perceber, as escolas e seus carnavalescos aproveitaram o fim da torre fixa de TV para fazerem carros gigantes que torna ainda mais complexa a tarefa de manobrar. Além das duas tragédias, tivemos vários carros com problemas gigantes na Sapucaí.

    Identificar culpados e processar responsáveis é fundamental. Mas é igualmente importante aprender com os desastres para impedir que eles se repitam. Vamos lembrar que em 1992 (ou 1991?) o carro da Viradouro pegou fogo, fez um monte de feridos e intoxicados e deixou aparentemente poucas lições.

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