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Picadinho de culturas

Grupo dinamarquês, Den Sorte Skole, lança álbum com mensagem de integração para tempos de segregação

Simon Dokkedal e Martin Hojland, formam o original grupo dinamarquês Den Sorte Skole
Simon Dokkedal e Martin Hojland, formam o original grupo dinamarquês Den Sorte Skole

Sendo transparente: nunca gostei de ovos de gema mole. Não curto, não transo, não é pra mim. E agora tenho um problema. São 9h. Estou sentado no Feinschmecker Cafe, no centro de Aarhus, Dinamarca, ao lado de Simon Dokkedal e Martin Hojland, do Den Sorte Skole. Por sugestão dos meus entrevistados, peço o mesmo que eles: café expresso, suco de laranja, iogurte, geleia, uma cesta de pães, queijos e…um ovo cozido. Dokkedal bate com a faca na casca até quebrá-la e se delicia com o conteúdo amarelo que sai, espalhando tudo por cima do pão. Hojland faz o mesmo, misturando a gema com o queijo. Sem alternativa para não prejudicar a imagem do Brasil no exterior, repito o mesmo ritual, imaginando que estou comendo alguma outra coisa, menos gema mole, e avanço com fome na conversa sobre o trabalho da dupla dinamarquesa, que faz da música um incrível picadinho de culturas e levanta a bandeira da integração em tempos de segregação.

É como se fosse uma banda ou uma orquestra fantasma, formada por mil cabeças, do passado e do presente, criando o som mais eclético e diverso do mundo.

Martin Hojland
Do Den Sorte Skole.

Na noite anterior, o Den Sorte Skole foi uma das atrações do palco principal do festival Spot*, de música e cultura nórdica. Em um show enxuto, de uma hora de duração, o grupo reconstruiu um pouco da colcha de retalhos que é o seu álbum de estreia, o desafiador “Indians and cowboys”, todo criado a partir de samples, de uma forma absolutamente original.

– Nunca é fácil tocar o disco ao vivo. Na verdade, não é possível reproduzi-lo fielmente, nem é essa nossa intenção – conta Dokkedal, músico de formação clássica, DJ e produtor, assim como seu parceiro. – O que fazemos é tocar alguns trechos, algumas bases, e ir adicionando camadas de samples por cima.

A originalidade de “Indians and cowboys” – que pode ser baixado livremente no site do grupo –  não está no fato de ser um álbum feito com samples. De Afrika Bambaataa a Coldcut, a colagem musical, um dos pilares da cultura hip-hop, já rendeu inúmeros trabalhos interessantes e pelo menos uma obra-prima, “Endtroducing…”, lançado pelo DJ Shadow (codinome do americano Josh Davis) em 1996. “Indians and cowboys”, porém, é um salto gigantesco dentro dessa estética. O álbum foi criado a partir de trechos de 350 discos de artistas de 75 países diferentes (quase nenhum deles dentro do radar da música pop), em épocas variadas, dos anos 50 até os anos 90. Ele contém vozes de monges tibetanos, percussões de Bali, guitarras do Líbano, cítaras indianas, violões da Grécia, discursos anti-racistas dos EUA, marchas fúnebres do Japão, cantos do Senegal, sonatas para piano da Rússia e um ou outro nome conhecido (como Ryuichi Sakamoto, Serge Gainsbourg, Kraftwerk e os brasileiros Walter Franco, Som Imaginário, Mutantes e Jocy Oliveira). Tudo arranjado e recombinado, de forma impecável, ao longo das 13 densas faixas de “Indians and cowboys”, classificado pelo jornal francês “Le Monde” como “uma obra colossal, uma versão musical da Torre de Babel”.

– É como se fosse uma banda ou uma orquestra fantasma, formada por mil cabeças, do passado e do presente, criando o som mais eclético e diverso do mundo – diz Hojland, que é formado em Ciências Sociais. – É uma sensação incrível estarmos, de alguma forma, conectados com todos eles. Mostrar que podemos falar a mesma língua, através da música, é uma mensagem importante num momento como o atual, com a crise dos refugiados na Europa e na Dinamarca em particular (o país adotou uma série de controvertidas medidas anti-imigração). Somos todos feitos de misturas, é sempre bom lembrar.

Capa do disco "Indians and cowboys", classificado pelo jornal francês "Le Monde" como uma versão musical da Torre de Babel"
Capa do disco “Indians and cowboys”, classificado pelo jornal francês “Le Monde” como uma versão musical da Torre de Babel”

Com uma metodologia e uma técnica própria, Dokkedal e Hojland – que estão juntos desde 2004 – costuraram tais pedaços ao longo de dois anos, tempo que levaram para concluir “Indians and cowboys”.

– Ao longo desse tempo, construímos um arquivo de samples com mais de dez mil sons, extraídos de discos de vinil que compramos em viagens ou pela internet. Organizamos tudo por instrumento, tempo e nota. Não manipulamos muito os samples para deixá-los o mais próximo possível do original. E aí começamos a criar os arranjos, de modo que não pareçam samples e sim trechos de uma mesma composição, o que é a parte mais difícil – explica Dokkedal, que credita a residência de ambos na Filarmônica de Copenhague, desde 2014, como crucial nesse processo. – Criar sinfonias é um aprendizado que vale para qualquer outra área da música. Sem dúvida, isso é algo que abre a cabeça para novas formas musicais.

Por conta da quantidade incomum de samples, “Indians and cowboys” foi lançado de forma independente, em vinil duplo, e não pode ser comercializado em lojas virtuais, como a iTunes, já que a dupla não conseguiu a liberação dos arquivos. Na verdade, nem sequer tentou.

Ao longo desse tempo, construímos um arquivo de samples com mais de dez mil sons, extraídos de discos de vinil que compramos em viagens ou pela internet. Organizamos tudo por instrumento, tempo e nota. Não manipulamos muito os samples para deixá-los o mais próximo possível do original.

Simon Dokkedal
Músico de formação clássica

– Não conseguiríamos, nem se tivéssemos grandes advogados ou uma grande gravadora por trás. Seria praticamente impossível liberar tamanho material, sendo que alguns samples são tão obscuros que nem tem referência ao autor – explica Dokkedal, formado em design. – O que fizemos foi dar todos os créditos no encarte do vinil, para que as pessoas possam reconhecer esses artistas e procurar esses discos também. Quanto às vendas, não nos importamos tanto com elas. Sempre soubemos que seríamos underground.

É hora de pedir a conta e ir embora, já que o Den Sorte Skole tem um show à noite em Estocolmo, na vizinha Suécia, mas Hojland quer contar mais uma coisa, sobre o nome do disco.

– Chamamos de “Indians and cowboys” por uma razão simbólica, porque nos acostumamos a ver nos filmes os cowboys primeiro e os índios depois. E não existe coisa mais equivocada e preconceituosa. Os nativos, de qualquer lugar, vieram antes dos colonizadores e dos ocupadores, seja nos Estados Unidos, no Brasil ou mesmo na Dinamarca. E eles nos deram a lição de que a terra não tem dono, ela é de todos. Sou tão dono da Dinamarca quanto um refugiado sírio.

Na porta do restaurante, um caminhão, repleto de equipamentos, já espera Dokkedal e Hojland para a viagem à Suécia. Antes de nos despedirmos, eles me presenteiam com uma cópia em vinil de “Indians and cowboys”. Agradeço e volto para o hotel ainda mais fã do grupo, mas não tanto de gema mole.

* Carlos Albuquerque viajou a convite da produtora PlusPlusPlus, com o apoio do Ministério da Cultura Dinamarquesa

Escrito por Carlos Albuquerque

Carlos Albuquerque

Carlos Albuquerque (ou Calbuque) é jornalista de cultura, biólogo, DJ (daqueles que ainda usam vinil) e ocasional surfista de ondas ridiculamente pequenas. Escreve com a mão esquerda e Darwin é seu pastor.

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