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Festa para o trovador

Num país desnorteado e desapontado, o lamento pela morte de Belchior

Para Belchior, com aquele jeitão meio Bob Dylan, meio Antônio Conselheiro, palavras são navalhas. Era impossível cantar sem ferir alguém. Foto Jeso Carneiro
Para Belchior, com aquele jeitão meio Bob Dylan, meio Antônio Conselheiro, palavras são navalhas. Era impossível cantar sem ferir alguém. Foto Jeso Carneiro

Talvez não soubéssemos que amávamos tanto Belchior e suas canções, mas bastou uma rápida convocação para que em torno de cem pessoas fossem parar, na noite de domingo, num sobrado no Largo de São Francisco da Prainha, numa improvisada festa em homenagem ao cantor-compositor e aos nossos sonhos e desilusões.

Lá houve uma espécie de gurufim sem corpo presente, um velório em que buscávamos consolo e tentávamos impedir a morte de tantos sonhos e desafios – buscávamos ficar vivos. A ideia foi da Flávia Oliveira que, impossibilitada de levar alguns amigos para sua casa, ligou para o Raphael Vidal, o cara da Casa Porto, ponto de reflexão e ebulição cravado na Praça Mauá. Ele, claro, topou. Foi o que bastou para viabilizar o Belchiorazzo.

Belchior morreu na hora da rebordosa, no momento em que o país revela suas entranhas, sua podridão, sua intolerância, seu preconceito e seu ódio, em que reprime o debate, a circulação de ideias, o contraditório.

As pessoas começaram a chegar por volta das 19h, todos ainda perplexos pela morte de um ídolo que, nos últimos anos, parecia ter aberto mão da vida, sumira dos palcos, largava contas e faturas como outrora jogara versos no ar. Um compositor indefinível, que, no auge da ditadura, em meio a tantas e ótimas canções de protesto, discorria não sobre uma política explícita, mas sobre revoluções que nasciam – e tantas vezes morriam – dentro de cada um de nós.

Protestos muitas vezes sufocados, percebidos como aquele inclassificável incômodo na hora de um almoço em família. Belchior percebeu como eram próximas as palavras pais e país, diferenciadas apenas por um acento. Viu que ambas remetiam ao passado, que eram fortes o bastante para nos tragar.

A barra pesada da ditadura torturava também as esperanças, mas aqui e ali havia a fé no futuro, no amanhã que seria outro dia. Mas Belchior não acreditava nisso, nada era divino nem maravilhoso – a vida é muito pior, alertava. Palavras – prosseguia com aquele jeitão meio Bob Dylan, meio Antônio Conselheiro – são navalhas, era impossível cantar sem ferir alguém.

Na noite de domingo, cantávamos para o sujeito que, há algumas décadas, confessara ter ficado desnorteado e desapontado – como era comum naquele tempo -, que ficara apaixonado e violento como cada um de nós.

Frase exibida na festa da Casa Porto, na Praça Mauá. Foto Oscar Valporto
Frase exibida na festa da Casa Porto, na Praça Mauá. Foto Oscar Valporto

Cantor que atraía multidões por todo o país – sua temporada com Simone no Projeto Seis e Meia, no Rio, gerou filas que serpenteavam a Praça Tiradentes, Belchior demonstrou, nos últimos anos de sua vida, que como tanto gritara em suas canções, não resistira ao mundo que lhe cercava. Por onde andava Belchior no tempo em que a gente ainda sonhava? Amigo, ele se desesperava.

Nós, talvez mais cascudos, pragmáticos e adaptados, caminhamos e cantamos, seguimos tantas canções e acreditamos num futuro melhor – o amanhã parecia estar ali na esquina, quase deu para tocá-lo. Belchior morreu na hora da rebordosa, no momento em que o país revela suas entranhas, sua podridão, sua intolerância, seu preconceito e seu ódio, em que reprime o debate, a circulação de ideias, o contraditório. Seu coração parou de bater no momento em que tanta gente que encarnou ideias de consciência e juventude está em cana, guardada por Moro e sonhando recuperar o vil metal.

Responsável pela irrigação do corpo humano, a aorta de Belchior não resistiu a tantos bloqueios. O jeito foi, horas de sua morte, fazer um boca-a-boca nas suas canções, precisávamos agradecer – afinal, deveríamos ter aprendido em seus discos que o sinal ficaria fechado também para nós, que fomos jovens. E assim, cantamos, dançamos, nos abraçamos. Como lembrou o Marcelo Moutinho, num determinado momento fizemos roda e brincamos com um balão de aniversário – não podíamos, ele frisou, deixar a bola cair.

Não desejamos entrar na roupa do passado, mas ainda queremos a sessão de cinema das cinco, o beijo na menina na rua e a camisa toda suja de batom.  Ali, na Praça Mauá, cenário que tanto remete à nossa história, mostramos que precisamos rejuvenescer, e não, não queremos ficar como o país (a gente não sente, não vê, mas uma nova mudança tem que acontecer), nem como nossos pais.

Festa improvisada no Largo de São Francisco da Prainha, na Praça Mauá, em homenagem ao cantor-compositor e aos nossos sonhos e desilusões. Foto Oscar Valporto
Festa improvisada no Largo de São Francisco da Prainha, na Praça Mauá, em homenagem ao cantor-compositor e aos nossos sonhos e desilusões. Foto Oscar Valporto

Escrito por Fernando Molica

Fernando Molica

É carioca, jornalista e escritor. Trabalhou na 'Folha de S.Paulo', 'O Estado de S.Paulo', 'O Globo', TV Globo e 'O Dia'; coordenou o MBA em Jornalismo Investigativo e Realidade Brasileira da Fundação Getúlio Vargas. É ganhador de dois prêmios Vladimir Herzog e integrou a equipe vencedora do Prêmio Embratel de 2015. Lançou, este ano, o romance 'Uma selfie com Lenin'.

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