Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

A especulação imobiliária sobe o morro e vira filme

Sérgio Ricardo finaliza longa sobre a favela onde vive desde a década de 70

Sergio Ricardo, no Vidigal, onde mora desde 1976:  “É o meu lugar. Eu nasci numa cidade do interior. Tem muito a ver com isso aqui”

Em dezembro de 1977, moradores do Vidigal foram surpreendidos por equipes da prefeitura enviadas para derrubar barracos e remover as famílias para o conjunto habitacional Antares, na Zona Oeste. A desculpa oficial era de que havia risco de desabamento, mas logo se descobriu que a intenção era construir um hotel de luxo no local. A população da favela acabou vencendo a especulação imobiliária. Um desses moradores era o cantor, compositor e cineasta Sérgio Ricardo, que, na época, mobilizou a classe artística em torno da causa. Quarenta anos depois, ele se prepara para lançar um filme sobre o episódio.

A injustiça com o povo brasileiro é uma coisa absurda. Não há o menor escrúpulo. É uma coisa fora do normal, que provoca muita revolta. Não só na favela, mas também no campo, nas fábricas, em todos os lugares onde podem instituir a escravidão — que ainda não acabou

Sérgio Ricardo
Cantor, compositor e cineasta

Sérgio Ricardo, que na verdade se chama João Lutfi, nasceu há 85 anos em Marília, interior de São Paulo. Veio para o Rio de Janeiro em 1952. Ainda hoje, é lembrado pela final do III Festival da Música Popular Brasileira, transmitida pela TV Record, quando, irritado com as vaias que recebia, quebrou seu violão e atirou-o na plateia. Mas seu currículo inclui 16 discos e quatro filmes, contando inclusive com prêmios no exterior. Em 1976, ao se separar, se mudou da Urca para o morro, de onde não saiu mais. “O Vidigal é o meu lugar. Eu nasci numa cidade do interior. Tem muito a ver com isso aqui. Eu gosto muito do povo”, derrete-se ele, para, em seguida, indignar-se: “A injustiça com o povo brasileiro é uma coisa absurda. Não há o menor escrúpulo. É uma coisa fora do normal, que provoca muita revolta. Não só na favela, mas também no campo, nas fábricas, em todos os lugares onde podem instituir a escravidão — que ainda não acabou.”

Entre 1963 e 1975, mais de 175 mil pessoas foram retiradas de suas casas em comunidades no Rio de Janeiro, o que levou o historiador Mario Brum a batizar o período como Era das Remoções. Com uma vista e localização privilegiadas, de frente para o mar, o Vidigal tinha se tornado um endereço da moda: famosos como Gal Costa e Lima Duarte moraram lá. Com a investida para expulsar famílias do morro, a associação de moradores logo entrou em ação, junto ao advogado Aloísio Teixeira, conseguindo uma ordem judicial que adiou as remoções. A Pastoral de Favelas da Igreja Católica também apoiou a comunidade.

Atores em cena na peça Bandeira de Retalhos. Foto: Reprodução/Youtube

Sérgio Ricardo, na época dono de um barraco e uma casa no local (a mesma onde vive até hoje), conseguiu o apoio de nomes como Chico Buarque e Ney Matogrosso, que participaram do show Tijolo por Tijolo, para arrecadar fundos para a população local. Em 2016, Chico e João Bosco voltaram ao lugar para um evento que comemorou os 75 anos do Vidigal e lembrou a vitória contra a gentrificação, também organizado por Sérgio Ricardo.

O roteiro de Bandeira de Retalhos ficou guardado por muitos anos: foi escrito em 1979. “Desde que eu entrei nessa briga, venho pensando em fazer um filme, mas isso foi ficando perdido, pelas condições, que não existiam. Cheguei a escrever um roteiro, muitos anos atrás. O Nós do Morro aproveitou e transformou numa peça, que fez muito sucesso”, conta ele, sobre o musical que estreou em 2012. Parte do elenco está também no longa-metragem, que, além do roteiro, tem direção e composições assinadas pelo próprio Sérgio Ricardo. A trilha sonora é de Alexandre Caldi.

Faltou pagar o pessoal todo, os atores, técnicos. Entraram todos no amor, e até agora não teve queixa nenhuma

Sérgio Ricardo
Cantor, compositor e cineasta

Na trama, a história real é pano de fundo para um triângulo amoroso formado por Neno (Marcello Melo, pai do ator Marcello Melo Jr.), Tiana (Kizi Vaz) e Bituca (Renan Monteiro), um bandido foragido. Os atores fizeram os mesmos papéis no teatro. Osmar Prado vive o deputado Délio dos Santos, que ajudou na luta contra a remoção, e Benvindo Siqueira interpreta o dono de uma birosca que realmente existiu no lugar. Já Antônio Pitanga (que também atuou em outros longas do diretor) é o cego João da Lua, personagem fictício. “O elenco é maravilhoso! Não tive trabalho nenhum com ator, os daqui são fantásticos. É por isso que as TVs estão atrás deles. A melhor coisa do filme é a atuação”, elogia Sérgio Ricardo.

Ele conta que conseguiu apoio do Canal Brasil para o básico: gasto com comida, alimentação e transporte. “Faltou pagar o pessoal todo, os atores, técnicos. Entraram todos no amor, e até agora não teve queixa nenhuma. Eu é que estou me queixando, porque acabou a montagem e o processo de finalização leva muito tempo, vai se arrastando, já que não tem dinheiro envolvido — as pessoas têm seus trabalhos, então vai ficando para depois. Isso está retardando a finalização do Bandeira. Mas a previsão, dentro do imprevisto que a gente está vivendo, é de que fique pronto até setembro”, arrisca.

O longa está sendo realizado em um momento em que a especulação imobiliária voltou a rondar o Vidigal. Nos últimos anos, sobretudo depois da instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na comunidade, em 2012, famosos como o cantor Otto e o ator francês Vincent Cassel trocaram o asfalto pelo morro. A cantora Madonna e o ex-jogador de futebol David Beckham também compraram casas por lá. Foram inaugurados albergues moderninhos (inclusive um projetado pelo renomado arquiteto Helio Pellegrino), atraindo turistas estrangeiros. A classe média carioca passou a subir a comunidade atrás das festas que acontecem ali. “O filme é atualíssimo. Inclusive as pessoas que estão envolvidas têm uma ansiedade de que ele fique pronto, porque pode ser uma contribuição para a discussão sobre o tema”, analisa Sérgio Ricardo.

Enquanto aguarda a conclusão desse trabalho, ele planeja levar para outras cidades do país o show Cinema na Música, recém-apresentado no Rio e que une duas de suas grandes paixões, lançar uma exposição com os quadros que pinta e o romance Igarandé — A Aldeia de Dois Caminhos (Ed. Multifoco), ilustrado por ele. “É a história de uma aldeia onde todo mundo perde a memória por causa de um mosquito. Tem um lado interessante, que é pensar o que é a humanidade sem memórias”, analisa ele, para quem o principal não é ganhar dinheiro, mas dar vazão à sua múltipla veia artística. “No meu caso específico, é esquisito, porque fico muito voltado para a criação, eu não dou muita bola para a coisa da distribuição do trabalho, da comercialização. O importante é realizar.”

Escrito por Kamille Viola

Kamille Viola

Carioca da Tijuca e jornalista formada pela Escola de Comunicação da UFRJ. Trabalhou no jornal O Dia, por onde ganhou o Prêmio Imprensa Embratel em 2009 e o Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2014. Também escreveu as revistas Bizz e Billboard. Atualmente, é colaboradora do site Women and Girls Hub, do site e da revista da União Brasileira de Compositores (UBC) e faz pesquisa e produção musical da série Show Mambembe, do Canal Futura. Está escrevendo a biografia autorizada de Martinho da Vila.

3 posts

2 Comentários

Deixe uma mensagem
  1. Parabéns pelo artigo.
    Sergio Ricardo merece todas as honras por tudo o que representa para a cultura brasileira, por seu espírito de luta, por essa inquietude que, aos 85, levam-no a estar realizando, com todas as dificuldades, um longa metragem, um magnífico show e lançando, em breve, um romance.
    Nosso profundo reconhecimento a Sergio Ricardo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *