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Conversas cariocas com o Negro Rei

Um papo com Martinho da Vila sobre seu livro de crônicas, tradição, cultura popular, escolas de samba e religião

Martinho José Ferreira é daqueles sujeitos raros que conseguem a proeza de ter uma vida plural. É o Martinho da Vila Isabel, de Duas Barras, do Rio de Janeiro, de Angola e do mundo inteiro. O que dizer de um sambista consagrado, dos maiores de todos os tempos, intelectual da lusofonia, profundo conhecedor da cultura popular brasileira, escritor, contador de histórias, pescador, filho de Mãe Teresa, parceiro de – dentre tantos – Candeia, Zé Katimba e Beto Sem Braço… Que além de tudo conseguiu a proeza de ser, por nove anos, dono de um botequim de responsabilidade que funcionava dentro de um shopping center?

Foi com Martinho da Vila que conversei recentemente, em virtude do lançamento de seu novo livro, Conversas Cariocas, reunindo crônicas que foram originalmente publicadas aos domingos no jornal O Dia. A conversa aconteceu na Rua Engenheiro Gama Lobo, lugar em que Martinho viveu em Vila Isabel. Por absoluta coincidência, eu moro exatamente numa das casas em que ele morou no bairro. Não à toa, a vizinha, assim que viu o sambista, gritou: “Veio matar as saudades, Martinho?”. Abrindo os braços, o mestre respondeu com o sorriso aberto e o jeito malandreado: “Ô, comadre! Tá tudo em casa!”.

Martinho fala da tradição como o ato de transmitir algo para que o receptor tenha condições de colocar mais um elo numa corrente que aponta para frente. É como a conhecida metáfora da árvore que, por ter as raízes mais profundas, cresce vigorosa e descortina incessantemente novos horizontes.

Ao falar de suas crônicas, Martinho ressaltou a particularidade que considero a mais interessante do trabalho: o diálogo entre a experiência corriqueira do cotidiano (é dessa miudeza, afinal, que as crônicas são feitas) e uma noção de tradição fortemente ancorada na ideia de ancestralidade.  A tradição, para Martinho (ele se declara taxativamente um sujeito apegado a ela), não é estática, parada no tempo, imobilizadora. Pelo contrário. Martinho fala da tradição como o ato de transmitir algo para que o receptor tenha condições de colocar mais um elo numa corrente que aponta para frente. É como a conhecida metáfora da árvore que, por ter as raízes mais profundas, cresce vigorosa e descortina incessantemente novos horizontes.

Martinho e Luiz Antonio Simas: encontro em Vila Isabel. Foto: Marco Antônio Rezende

As crônicas de Martinho passeiam por Duas Barras (a cidade de origem), Vila Isabel e Luanda com a mesma afetividade. Perguntado sobre isso, Martinho diz ser um sujeito que consegue se adaptar e viver bem em lugares os mais diversos. Hoje morador da Barra da Tijuca, confessou com a maior tranquilidade que viveria numa boa tanto em Paris como no Morro dos Macacos, onde é respeitado, e lamentou certa impessoalidade de um condomínio da Barra em relação à vida rueira de Vila Isabel.

Durante boa parte do tempo, falamos sobre a importância das festas como experiências comunitárias geradoras de sociabilidades e afetos. Martinho traz a lembrança viva – e o livro retrata isso – das folias de Santos Reis, das fogueiras de São Pedro, Santo Antônio e São João e das procissões dos santos do cristianismo popular que marcaram a infância em Duas Barras. Neste ponto, lembrei a ele de uma máxima de Beto Sem Braço: o que espanta a miséria é festa!

Criado no catolicismo, Martinho se aproximou ao longo da vida da religiosidade afro-brasileira, especialmente da umbanda. Traz dessas experiências uma aproximação com a fé que lembra muito o último enredo da Mangueira, “Só com a ajuda do santo”.  Circulando entre capelinhas e gongás, Martinho parece falar de um Brasil forjado a partir dos saberes populares das giras de caboclos, procissões de santo, rodas de samba, congadas, moçambiques, bois, fogueiras juninas, simpatias de lua nova, cirandas, cozinhas de terreiros, doces de Cosme e Damião, ladainhas das mulheres santas de Canudos, cantigas de cegos, versos de partideiros e brados saídos dos quilombos. Um país que sapateia no batuque das danças de São Gonçalo e no Canto das Lavadeiras (título de um LP de Martinho que, dentre tantos, é o meu predileto).

Martinho da Vila: críticas às escolas de samba. Foto: Marco Antonio Rezende

Como não podia deixar de ser, Martinho falou de carnaval. Criticou a maneira como as escolas de samba embarcaram com tudo nos delírios visuais dos carnavalescos, perdendo grande parte de suas características fundamentais e deixando de serem instituições culturais que promoviam o convívio cotidiano entre as gentes das suas comunidades de origem.

Meteu bronca no esfacelamento das alas de compositores, que nos carnavais de outrora eram os setores pensantes das agremiações, e nos custos altíssimos que as disputas de samba atingiram. Relembramos juntos que praticamente todas as escolas tradicionais do Rio de Janeiro foram fundadas por compositores, inclusive a Vila Isabel de Paulo Brasão.

Entre o efêmero da crônica e o transcendente da sabedoria ancestral, Martinho da Vila transita pela vida como um Cumba, um mestre das sabedorias do Congo e de Angola, propagador das kizombas e festanças mais bonitas de um Brasil que ainda pulsa no canto da nossa gente

Martinho confirmou ainda que, de fato, pescou um peixe de 46 kg no Pantanal do Mato Grosso (mais detalhes no livro) e contou das peripécias que fazia para manter um botequim funcionando dentro de um shopping; algo aparentemente tão inusitado quanto, para ficar em um exemplo comparativo, realizar um xirê de candomblé, com atabaques, rodas de iaôs e padê de Exu, dentro de uma igreja neopentecostal.

Divergências com os administradores do shopping – os engravatados não conseguiam compreender que um botequim de responsabilidade não pode fechar às dez horas da noite sempre – levaram ao fim da aventura de quase uma década. Para quem quiser saber mais sobre como foi o papo com o mestre basta assistir ao vídeo acima. Melhor ainda é ler o livro. Entre o efêmero da crônica e o transcendente da sabedoria ancestral, Martinho da Vila transita pela vida como um Cumba, um mestre das sabedorias do Congo e de Angola, propagador das kizombas e festanças mais bonitas de um Brasil que ainda pulsa no canto da nossa gente.

Escrito por Luiz Antonio Simas

Luiz Antonio Simas

É historiador, professor e escritor. Foi colunista do jornal O Dia e jurado do Estandarte de Ouro, prêmio carnavalesco do jornal O Globo. Tem diversos livros lançados sobre cultura popular, carnaval, samba e Rio de Janeiro. Recebeu, pelo Dicionário da História Social do Samba, escrito com Nei Lopes, o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção/2016.

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