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O quintal poético de Rubem Braga

Casa onde o cronista cresceu, em Cachoeiro do Itapemirim, reabre como museu

A casa onde viveu Rubem Braga: infância entre cajueiros e pés de fruta-pão. Foto: Prefeitura de Cachoeiro do Itapemirim/Divulgação

“….É extraordinário que eu esteja aqui, nesta casa, nesta janela, e ao mesmo tempo é completamente natural e parece que toda a minha vida fora daqui foi apenas uma excursão confusa e longa; moro aqui. Na verdade onde posso morar senão em minha casa?… Entretanto uma parte desse mundo perdido ainda existe e de modo tão natural e sereno que parece eterno; agora mesmo chupei um caju de 25 anos atrás…”  Rubem Braga (1913/1990), na crônica Em Cachoeiro – fevereiro de 1947.

O grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família

Rubem Braga
No livro A Cidade e a Roça

Nesta terça-feira, 13 de junho de 2017, um cajueiro será plantado na pequena cidade de Cachoeiro do Itapemirim, Sul do Espírito Santo. A muda, já crescida, deve encorpar depressa e, quem sabe, produzir frutas em poucos anos. A arvorezinha fincará suas raízes no morro atrás da casa, exato lugar onde existia outro pé de caju, que tombou sob violenta tempestade em setembro de 1954. A morte do cajueiro original fez chorar os donos da casa – inclusive um dos filhos distantes, o cronista Rubem Braga, na época morador de Copacabana.  O texto foi publicado no livro A Cidade e a Roça, pura poesia braguiana.

“O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu. (…) O grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde. No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.”

Um dos quartos da casa de 400 m2, erguida em 1912: exposição com peças do ambiente original. Foto: Divulgação

O plantio do cajueirinho é parte da cerimônia que tratará de reabrir a Casa dos Braga, erguida em 1912 num estilo colonial português na esquina das ruas 25 de Março e José Gardoli. Foi ocupada em 1915 pela família do Coronel Chico Braga, dona Neném – Rachel Coelho Braga-  e seus filhos. É um casarão verde de muitas janelas, hoje pintadas de um verde mais escuro, assentado sobre uma espécie de porão fechado. Quem visitar a casa até maio de 2019 vai conhecer parte do ambiente em que Rubem Braga cresceu – o quarto do casal e a sala de jantar foram completamente restaurados.  A iniciativa é da Prefeitura Municipal de Cachoeiro com a família Braga.

Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: “Eu sou lá de Cachoeiro…

Rubem Braga
Na crônica O Dia de São Pedro

– São lembranças de uma vida, de uma família inteira – conta a designer Carol Braga Abreu, nora da irmã mais moça de Rubem, Anna Graça.  Com a cunhada Beatriz Braga, é uma das responsáveis pela montagem da exposição.– A sala de jantar, que era o verdadeiro espaço de socialização, está completíssima, assim como o quarto do casal.

A edificação de 400 m2, que chegou a ser escritório, cursinho e restaurante, foi comprada da família pela Prefeitura em 1985 e transformada em Biblioteca Municipal; tombada como patrimônio histórico em 2011, fechou em 2014, para uma restauração que custou R$ 700 mil, em projeto do Governo do Estado. Agora, transforma-se em museu que celebra a família e a herança cultural da cidade.

– Minha mãe sonhava voltar para cá – lembra Beatriz Braga de Abreu Lima, a mais velha dos cinco filhos de Anna Graça. – E Rubem não admitia vender a casa, tinha um apego fenomenal. Essas mostras são uma viagem no romantismo dos irmãos. Muito emocionante remontar esses ambientes.

Retrato do cronista na parede e livros da Editora do Autor, que ele fundou com Fernando Sabino e Walter Acosta. Foto: Divulgação

Na reabertura, inauguram-se duas mostras: “Minha cidade, minha casa” traz 132 peças do ambiente original, das luminárias e talheres até cadeiras de balanço e máquinas de escrever e de costura, além do dormitório completo. Os objetos e móveis permanecem sob contrato de comodato entre a prefeitura de Cachoeiro e a família Braga de Abreu – a maioria pertenceu a Anna Graça, pintora, falecida quatro anos atrás, aos 91 anos. A segunda, “Rubem e seus amigos artistas”, exibe reproduções de desenhos e quadros dedicados a Rubem ou criados como ilustrações de suas crônicas.

– São imagens de Djanira, Di Cavalcanti, Caymmi, Portinari – enumera a Secretária de Cultura, Fernanda Martins. – Com a reabertura, a Casa dos Braga se transforma de novo em equipamento cultural importante da cidade. A obra preservou o que era original, como a bela estrutura em madeira de lei que sustenta o imóvel, e fez melhorias importantes, como a instalação de elevador, climatização. Vamos programar e estimular as atividades culturais.

Nossa casa era bem bonita, com varanda, caramanchão e o jardim grande ladeando a rua. (…) lá no fundo, o precioso pé de saboneteira que nos fornecia bolas pretas para o jogo de gude. Era uma grande riqueza, uma árvore tão sagrada como a fruta-pão e o cajueiro do alto do morro, (…) eu invejava os que moravam do outro lado da rua, onde as casas dão fundos para o rio. (…) Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá no quintal deles ver até onde chegara a enchente. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio cresceu tanto que a família defronte teve medo. Então vinham todos dormir em nossa casa. E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso porão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais (na crônica “Os trovões de antigamente“).

O acervo da Biblioteca Municipal instalada na casa em 1987 conheceu de perto a fúria do rio Itapemirim: boa parte dos livros foi perdida numa enchente no final de 2009 – o resto acabou transferido para outro local e a casa, fechada.

Rubem não nasceu naquela casa– em janeiro de 1913 a família estava aguardando o fim das obras. Até 1958, o casarão foi ocupado  pela família. Ali nasceram Yedda e Anna Graça, as caçulas dos sete rebentos de Francisco e Rachel.  Entre 1914 e 1916, o coronel seria o primeiro prefeito da cidade – e foi ele mesmo, Chico Braga, quem determinou que São Pedro seria o padroeiro do município, cravando  29 de junho a data da festa municipal.

“Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: “Eu sou lá de Cachoeiro…” (Rubem Braga na crônica O Dia de São Pedro)

Rubem em sua última visita à casa de Cachoeiro, em 1990, ano de sua morte: “Parece que toda a minha vida fora daqui foi apenas uma excursão confusa e longa”. Foto: Divulgação

O cronista, segundo Beatriz, “por muito tempo, pagou pela manutenção de tudo”,  não esteve na casa na reabertura em abril de 1987, mas apareceu de surpresa em setembro daquele ano.

– Ele ia fazer uma coletiva de imprensa – explica Neusa dos Santos, responsável pelo espaço desde a aquisição pela Prefeitura. – Mas pediu para ficar 15 minutos sozinho. E perguntou muito pela grama plantada no jardim da frente, acho que queria levar para seu apartamento carioca.

O “Quintal aéreo”, cobertura repleta de árvores em Ipanema para onde Rubem se mudou em 1963, era uma verdejante memória da infância em Cachoeiro.  José Castello conta no livro Na cobertura de Rubem Braga que o cronista sonhava plantar um cajueiro em seu pomar urbano: “O que o impedia era o fato de a raiz da planta sempre crescer vizinho abaixo. ‘Um dia, deixo as raízes saírem pelo teto da sala dele’, teria dito, num dia de humor aziago”.

O escritor morreu em 1990, e o apartamento no Rio foi ocupado pelo seu filho único, Roberto Seljan Braga, que chegou  morar com a avó no casarão durante a infância. Roberto  nunca mais voltou a Cachoeiro. Adoentado, estava programando a ida para a inauguração. Mas faleceu em maio, aos 80 anos.

– Aqui é meu lar. Estou até com ciúme – confessa Beatriz. – Espero que cuidem bem dele.

A partir de hoje (13), quem visitar a casa dos Braga vai encontrar o novo cajueiro crescendo e o tradicional pé de fruta-pão no pátio frontal.  Poderá imaginar o caramanchão, os pés de acácia, amora, romã.  E visitar a lembrança interiorana de Rubem, tantas vezes conjurada em sua obra. E, quem sabe, provar um caju amarelo.

Escrito por Luciana Medeiros

Luciana Medeiros

Luciana Medeiros é carioca, passou pelas redações de O Globo, TV Manchete, Rádio JB, Rádio MEC; escreveu os livros Antonio Meneses​: Arquitetura da Emoção (Editora Algol) e Guiomar Novaes do Brasil (BNDES), com João Luiz Sampaio. Organizou o livro 25 Cronistas Falam de Superação (Verbo Virtual). Milita na assessoria da área cultural. Em 2016, fundou com Débora Ghivelder o site Tutti Clássicos, especializado em música de concerto e ópera.

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2 Comentários

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  1. Emocionante! Tenho certeza que em breve também será transformada em Casa-Museu uma outra Casa também de Família Braga de Cachoeiro de Itapemirim (não sei se da mesma família), agora, do “Rei da Juventude Brasileira” na década de 1960 – Roberto Carlos – não tenho nenhuma dúvida de que minha previsão será concretizada (se é que eu não esteja desinformado e até já tenha sido transformada em Casa-Museu). De qualquer forma, Parabéns aos Capixabas pelo Reconhecimento e Preservação de sua cultura – essa atitude certamente trará divisas e rentabilidade à cidade de Cachoeiro que eu sempre amei desde que soube há muito tempo tratar-se da terra natal de Roberto – por tudo que ele representou para a nossa música.

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