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O Carnaval do retrocesso

Enquanto a folia cresce em capitais como Belo Horizonte e Brasília, no Rio blocos sofrem com decisões da prefeitura e vivem clima de incertezas

O desfile multicolorido do bloco Orquestra Voadora, no Aterro do Flamengo: folia de 2018 cercada de incertezas. Foto: Fernando Maia/Riotur
O desfile multicolorido do bloco Orquestra Voadora, no Aterro do Flamengo: folia de 2018 cercada de incertezas. Foto: Fernando Maia/Riotur

“Não põe corda no meu bloco, não vem com teu carro-chefe, não dá ordem ao pessoal. Não traz lema nem divisa, que a gente não precisa que organizem nosso carnaval”. Nas estrófes do samba Plataforma, de João Bosco, o resumo da angústia que ronda os blocos de rua do Rio de Janeiro desde que o prefeito Marcelo Crivella assumiu. A cidade, que liderou a reinvenção da folia de rua há cerca de três décadas, tornou-se exemplo de retrocesso quando o assunto é Carnaval. E está em vias de perder, em menos de um ano, o que foi construído em quase dez, de forma colaborativa entre blocos, poder público e associações.

A atual gestão da Riotur, órgão que controla o Carnaval na cidade, decidiu mudar a regra do jogo e reinventar a administração da festa. E errou feio ao colocar de lado toda a experiência acumulada no próprio órgão e jogar fora um modelo que, mesmo com necessidade de ajustes, dava conta do recado nos quesitos infraestrutura e organização. Montou um Chamamento Público para o Carnaval 2018 e juntou no mesmo edital os 500 blocos de rua, as escolas de samba dos grupos B, C, D e E (Intendente Magalhães), os 18 palcos e bailes populares (incluindo os tradicionais concursos de Bandas Carnavalescas, Coretos e Folião Original), o Baile da Cinelândia, e os blocos de embalo e de enredo da Avenida Chile.

Já enfrentamos situações adversas antes, mas nunca ficamos tão à margem das resoluções que dizem respeito ao Carnaval de rua

Rodrigo Resende
Presidente da Liga dos Amigos Zé Pereira

Com um edital sem definições claras, sem indicação de como o dinheiro será gasto e, acima de tudo, ousado demais para o momento político e econômico – aposta alta para uma prefeitura que ainda não disse a que veio -, o  “chamamento” foi um fracasso. Dos 56 milhões que se pretendia arrecadar com a venda de 13 cotas de patrocínio, só foram alcançados 8 milhões, ou 14% do total pretendido, vindos de uma única empresa (outras duas apresentaram propostas, recusadas por não cumprirem os requisitos do edital). Fato é que a Riotur não tem dinheiro para dar conta da “megaoperação de guerra”, como o ex-secretário de Turismo e ex-presidente da Riotur Antonio Pedro Figueira de Melo se refere à organização do Carnaval carioca. E, para piorar, até agora não foi apresentado um plano B para botar na rua a festa de 2018.

Se a nova gestão está longe de ter um mínimo de apreço pelo tema, deveria ao menos considerar sua importância econômica para o Rio. São 3 bilhões de reais circulando no período de 45 dias, 5 milhões de foliões nas ruas e 1 milhão de turistas na cidade. Essa façanha necessita de uma infraestrutura pública planejada e de muita segurança, para que não se transforme em caos.

Agora, só temos incertezas e o caos

Pedro Ernesto
Presidente do Cordão da Bola Preta

Diante de tantas decisões equivocadas, em tão pouco tempo, e que só reforçam a certeza do retrocesso, difícil entender o que passou pela cabeça da equipe da Riotur. Além do fim do Caderno de Encargos, substituído pelo tal Chamamento, o presidente da Riotur, Marcelo Alves, decidiu também, sem abrir o diálogo, transferir os blocos da Barra da Tijuca para o Parque Olímpico, que deverá ser transformado na Arena dos Blocos.

As associações carnavalescas foram enfáticas na recusa de tal ideia. Assim como rechaçaram outra decisão recente e unilateral sobre restrições aos blocos do Leblon, bairro de classe média alta, em que poucas lideranças vinham pressionando pelo fim do Carnaval. Na Sebastiana, a associação mais antiga, a posição é a de que o confinamento dos blocos a circuitos ou espaços fechados, como “blocódromos”,  fere os princípios de liberdade e identidade do Carnaval carioca, democrático e marcado pela ocupação livre das ruas.

O Bloco Beiço do Wando, em Belo Horizonte: enquanto o Rio assiste a um retrocesso, o Carnaval cresce na capital mineira. Foto Danilo Candombe
O Bloco Beiço do Wando, em Belo Horizonte: enquanto o Rio assiste a um retrocesso, o Carnaval cresce na capital mineira. Foto Danilo Candombe

A Liga dos Amigos do Zé Pereira faz coro. “Somos contra qualquer descaracterização do carnaval de rua e qualquer retrocesso na operação pública. Já enfrentamos situações adversas antes, mas nunca ficamos tão à margem das resoluções que dizem respeito ao Carnaval de rua”, diz o presidente da Liga, Rodrigo Resende. “A Folia Carioca é contra qualquer decisão unilateral de cerceamento da utilização do espaço público para manifestações culturais populares”, publicou nas redes sociais Roberto Velloso, presidente da associação. Helaide Teixeira, à frente da Sambare, que reúne os blocos da Barra, Recreio e Vargens, diz que o grupo concorda com a ideia, com ressalvas. “Aprovamos a criação da Arena como um espaço de entretenimentos e para eventos durante o ano, como carnaval fora de época. Mas continuaremos a desfilar nos mesmos locais”, diz.

Sempre houve embates sobre a ocupação das ruas da cidade durante o Carnaval. Mas todos concordam que, ao menos nos últimos anos, havia diálogo em busca de conciliação. O Suvaco do Cristo e o Monobloco servem de exemplo. O primeiro teve que mudar horário e trajeto depois do desfile de 2006, em que apareceram inesperadamente 50 mil foliões. O trânsito na Zona Sul deu um nó, a cidade parou por oito horas. A decisão, do próprio bloco, foi acatada pela Riotur.

O Monobloco trocou seu desfile de lugar três vezes, até chegar ao Centro, onde acomodou seus mais de 500 mil foliões. “Nada nunca foi imposto, tudo sempre foi muito conversado, tratado com cada bloco, com as ligas, as associações de moradores e com o próprio Ministério Público. O diálogo sempre foi fundamental”, diz o ex-secretário Antonio Pedro, que encontrou em 2009 um Carnaval sem nenhuma organização.

Com a intenção de abrir o diálogo e participar da construção de um novo momento da gestão pública,  representantes de todas as ligas e de mais de 100 blocos reuniram-se com os novos funcionários da Riotur, incluindo o presidente, Marcelo Alves, em 6 de maio, no seminário Desenrolando a Serpentina. Foram mais de três horas de discussões. “Jogamos palavras ao vento, foi tempo perdido. Agora, só temos incertezas e o caos”, resume o presidente do Cordão da Bola Preta, Pedro Ernesto. Em 2018, o Bola Preta completará 100 anos. É o mais antigo bloco em atividade contínua no país, e disputa com o Galo da Madrugada, de Recife, o título de maior bloco de rua, com cerca de 2 milhões de foliões. No entanto, até agora, não há certeza de que o Bola consiga desfilar.

Multidão curte a folia do bloco Babydoll, em Brasília. Foto: Fernanda Furtado/Divulgação
Multidão curte a folia do bloco Babydoll, em Brasília. Foto: Fernanda Furtado/Divulgação

Pois se no Rio o relógio andou para trás, cidades de carnavais emergentes, espelhadas no modelo da cidade maravilhosa, como Belo Horizonte e Brasília, vão avançando. Durante o I Seminário de Carnaval de Brasília, realizado nos dias 24 e 25 de agosto, no Clube do Choro, Juca Ferreira ex-ministro  e atual secretário de Cultura de Belo Horizonte, e Aluizer Malab,  presidente da Belotur, apresentaram os números do crescimento do Carnaval da capital mineira, e novas medidas por uma melhor organização.

Cerca de três milhões de pessoas, sendo 500 mil turistas, circularam nas ruas de Belo Horizonte durante o Carnaval de 2017, o que, segundo a Empresa de Turismo de Belo Horizonte, Belotur, demonstra que a cidade superou as estimativas de público e teve a maior festa de todos os tempos. Belo Horizonte já conta com cerca de 350 blocos e 416 desfiles. De acordo com Aluizer Malab, presidente da Belotur, é um momento histórico para a cidade. “O que presenciamos este ano não passa apenas pela recuperação do nosso Carnaval, hoje o terceiro maior do país, mas também pela mudança de paradigma. Estamos nos entendendo como uma cidade cosmopolita, turística, de grandes fluxos, eventos e pessoas, tudo isso aliado a nossa cultura genuína e a lugares especiais, que proporcionam experiências únicas”.

Os números da folia também multiplicaram em Brasília, que já reúne 2 milhões de pessoas em 118 blocos. A iniciativa da secretaria municipal de Cultura de promover o debate foi o primeiro passo para não deixar os problemas se avolumarem. “É urgente o aperfeiçoamento de uma política pública para o carnaval do Distrito Federal”, disse o secretário Guilherme Reis, na abertura do evento. “Já iniciamos as conversas e queremos a desburocratização das regras, mais infraestrutura e a criação de possíveis linhas de financiamento para o Carnaval”, diz Camilla Rosal, organizadora da fanfarra Calango Careta, que está à frente da Associação de Blocos Alternativos de Brasília, da qual também faz parte Rosely Youssef, presidente do Babydoll de Nylon, hoje com 180 mil foliões.

No encontro em Brasília, também estiveram presentes representantes de Salvador, Recife e Olinda, que apresentaram as respectivas leis municipais sobre o tema. O Rio de Janeiro,  ao contrário dessas três cidades do Nordeste e, inclusive, de São Paulo e Belo Horizonte, não tem uma. A Sebastiana acaba de encaminhar à Comissão de Cultura da Câmara dos Vereadores pedido para a criação da Lei do Carnaval do município e um grupo de trabalho começa a se reunir já na próxima semana. A legislação ajudará, entre outras coisas, na definição de papeis, na busca de patrocínio e financiamento, na melhoria da infraestrutura e na preservação das características do Carnaval carioca – entre elas,  a de não haver circuitos fechados para os blocos. Para democratizar as decisões, será criado um conselho, com a participação do poder público e da sociedade.

Escrito por Rita Fernandes

Rita Fernandes

É jornalista e pesquisadora de carnaval, com mestrado em Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas. Foi colunista do jornal O Dia, titular da coluna Pelas Ruas, sobre a cultura de rua da cidade. É consultora de conteúdos sobre carnaval de rua para a Globo News. Uma das fundadoras do Bloco Imprensa Que Eu Gamo e presidente da Sebastiana - Associação de Blocos de Rua, desde 2004.

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Um Comentário

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  1. O carnaval de rua do Rio de Janeiro foi modelo para a organização dos carnavais de rua de São Paulo Paulo e Belo Horizonte. Não se entende por que a prefeitura do Rio desconsiderou uma experiência que deu tão certo que virou referência para outras cidades. Se já dispusessemos de uma lei do carnaval, não ficaríamos à mercê de governos que não compreendem a importância da festa e parecem pouco dispostos a ouvir quem sempre contribuiu para um carnaval alegre, espontâneo, mas com infraestrutura e organização.
    Ainda dá tempo de a prefeitura do Rio considerar a experiência bem-sucedida e desistir de tentar reinventar a roda. Já passou da hora de a cidade dispor de uma lei do carnaval, negociada entre blocos, autoridades e sociedade civil.
    O carnaval é uma farra, mas ensina que é uma beleza. Só não vê quem não quer.

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