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O treino da moda

Ou como fazer bonito na academia sem gastar quase nada

Uma das grandes vantagens das trash clothes é que ninguém pede para dividir os aparelhos. Foto Odilon Dimier / AltoPress / PhotoAlto
Uma das grandes vantagens das trash clothes é que ninguém pede para dividir os aparelhos. Foto Odilon Dimier / AltoPress / PhotoAlto

Do meu lado tem um sujeito numa esteira, que não deve se chamar mais esteira, deve ser uma ultra-maxi-plus-treadmill ou algo parecido, tanto faz. O cara calça um par de tênis tão caro que dava pra resolver o problema da Previdência por dez gerações. O short e a camiseta – também deve ter um nome sofisticado pra esse conjunto –  são do tipo arara lisérgica, catálogo pantone de todas as cores espalhafatosas que existem no mundo. O sujeito, apesar de usar um figurino que ficaria bem no alto do quinto carro alegórico da Beija Flor, não está acenando para a plateia, está concentrado na sua corrida. Focado, nos termos atuais.

Só tenho visto vantagens nesse modelo: ninguém pede para dividir um aparelho, tenho sempre o vestiário só para mim e nenhum professor me interrompe para nada.

Mais à frente tem uma mulher de idade indefinida, cada parte do corpo, tem uma idade diferente, esses milagres da medicina moderna. Ela usa um macacão que parece um traje espacial retrô, não fossem os detalhes que não fazem nenhum sentido nem no futuro nem no passado, o que dirá no presente. Uns trançados, umas rendas, umas transparências, era pra ser funcional mas virou barroco. A mulher também está focada.

Todo esse foco só é desfeito quando olham pra mim. Há espanto e sinto neles uma certa repugnância, que, convencido que sou, atribuo só ao meu figurino.

Na minha religião pessoal, onde só existe um Deus: eu; e um fiel: também eu; a roupa se divide em três espécies: a de impressionar, a de ficar em casa e a de jogar bola. A de impressionar, ou sair, não precisa de muita explicação, é a camisa nova, a que não é tão nova mas ainda faz um bonito e a que não faz mais bonito mas pela qual paguei caro em 1995 e ainda precisa justificar o dinheiro gasto.

A de ficar em casa é aquela que um dia foi de sair mas já ficou muito manjada, de tanto uso já é reconhecida nas redes sociais e cumprimentada pelos fregueses do bar Rebouças. Camisetas que viraram uma película de algodão, calças que vão sozinhas do quarto à cozinha e tênis e sapatos se tornaram à medida pelo excesso de uso. Confort clothes, diria o publicitário coxinha.

E na última categoria está a roupa de jogar bola, igual aquela que a mamãe me obrigava a vestir quando eu descia pro play. É o fim da linha da indumentária. Nela estão os shorts já rasgados mas ainda não indecentes o suficiente para motivar uma prisão, as camisas com furos maiores que um dedo e os tênis colados com silver tape. No conjunto forma um dress code muito adequado à Fundação Leão Xlll mas que, usado com relativa galhardia, faz as pessoas pensarem duas vezes antes de dar esmolas. Trash clothes, diria aquele publicitário.

Como não jogo mais bola, sobrou para a academia. A roupa para treinar é o novo fim de linha.

Só tenho visto vantagens nesse modelo: uma vez criada a indiferença aos olhares de espanto, pena e repugnância dos outros alunos, é só alegria. Ninguém pede para dividir um aparelho, tenho sempre o vestiário só para mim e nenhum professor me interrompe para nada. Já estou até pensando em usar o figurino de jogar bola em atividades mais nobres.

Pelo efeito, é a verdadeira roupa de impressionar

E não custa nem um décimo daquela camisa de 1995.

Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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