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O sapateiro mais antigo do Rio

O português Joaquim da Silva resiste no mesmo endereço, em Ipanema, há 62 anos, exercendo uma profissão ameaçada de extinção

Seu Joaquim, o mais antigo sapateiro do Rio. (Foto de Livia Ferrari)
Seu Joaquim, o mais antigo sapateiro do Rio,  trabalha na mesma loja há 62 anos. (Foto de Lívia Ferrari)

Sapateiros existem vários, mas, certamente, nenhum deles tão antigo na profissão quanto Joaquim Gomes da Silva, 88 anos, na ativa desde os 11. Sem medo de errar, ele garante ser “o mais velho no ofício”, pelo menos no Rio de Janeiro, onde chegou em 1950, vindo de Portugal, sua terra natal. Os registos oficiais da cidade confirmam a antiguidade.

Nascido em 1929 , em Vila da Feira, distrito de Aveiro, Seu Joaquim aprendeu o ofício com o pai e o avô, seguindo a tradição da família numa região onde predominava a indústria calçadista. Aos 20 anos, fugindo da crise econômica e do alistamento militar, que o levaria para combate nas colônias portuguesas na África, embarcou rumo ao Brasil. Pegou o navio Portugal, um velho cargueiro reformado, no cais de Leixões, na cidade do Porto. Depois de meses de muito enjoo em alto mar, desembarcou no porto do Rio, na Praça Mauá.

Fui sapateiro de todas as patentes: almirantes, generais e marechais, que moravam no bairro

Joaquim Gomes da Silva
sapateiro

O imigrante se estabeleceu em Ipanema, na zona Sul do Rio, bairro distante do centro da cidade para os padrões do início dos anos 50, pouco habitado na época, relativamente desvalorizado e carente de serviços. Foi lá que abriu, em 1955, sua oficina, de apenas seis metros quadrados, na Rua Redentor, quase esquina com Garcia D’ávila, hoje área super nobre, alvo do setor imobiliário. “Ipanema era isolada de tudo”, recorda. Por isso mesmo, morar no bairro cabia no orçamento do recém-chegado, que alugou um quarto em uma das casas das chácaras que existiam no local – hoje, a movimentada avenida Visconde Pirajá.

A arte de consertar sapatos: na era do descartável, ofício ameaçado de extinção. Foto: Vladimir Trefilov/Sputnik

O português se mantém desde então no mesmo endereço comercial e perdeu as contas de quantos sapatos já consertou ao longo dos últimos 62 anos no pequeno estabelecimento. “Milhares de pares, entre substituição de solas, meia sola, saltinhos, biqueiras ”, diz, lamentado, porém, a atual escassez de bons calçados, como os “puro cromo alemão de antigamente”. “Hoje há muito material sintético, couro vegetal, praticamente descartável”, observa ele, que, no passado, chegou a ter até meia dúzia de funcionários para conseguir dar conta das encomendas, principalmente de sapatos finos femininos, forrados em cetim, usados em ocasiões especiais, como casamentos.

Bem-humorado, com clientela fiel já na quarta geração, Seu Joaquim diz, em tom de brincadeira, que sua oficina está instalada numa área militar. “Fui sapateiro de todas as patentes: almirantes, generais e marechais, que moravam no bairro”, conta, citando nomes poderosos, como os dos ex-presidentes Gaspar Dutra, Humberto Castelo Branco e Ernesto Geisel. Ele continua sendo o sapateiro de descendentes dessas famílias, que ainda residem no local.

A profissão está ameaçada de extinção, mas o sapateiro octogenário promete resistir. Tanto que já preparou um herdeiro, seu filho Jorge. Uma forte arma de resistência é a velha máquina de fabricação alemã, comprada de segunda mão, nos anos 60, da extinta e famosa, na época, indústria Calçados Nunes. Uma verdadeira relíquia, em pleno uso e que nunca parou de funcionar. “Um maquinário ‘sete instrumentos’, que faz lixamento, polimento, brilho, acabamentos”, diz, orgulhoso, lembrando ainda que sua máquina de costura e arremates tem mais de cem anos , também em total atividade.

O mais antigo sapateiro do Rio viu Ipanema se transformar.  De área praticamente deserta, passou para bairro residencial, na década de 50, com a construção de casas, que, posteriormente, foram substituídas por edifícios de luxo, no verdadeiro boom imobiliário dos anos 70.

Sua pequena oficina é cobiçada por construtoras, interessadas no terreno do imóvel, hoje espremido entre prédios. Joaquim nunca se abalou com o assédio. Como se para reafirmar sua permanência no local, mandou pintar no toldo da fachada da loja a palavra SAPATEIRO, em graúdas letras de forma. Na parede, chama a atenção um escudo do Vasco da Gama, com a inscrição “Minha paixão”. Ao lado, um galho de arruda, que ele renova a cada semana. Em um quadrinho, um recado aos clientes: “Se você foi bem servido, diga aos outros. Se foi mal servido, diga a nós”.

Escrito por Livia Ferrari

Livia Ferrari

Trabalhou como editora no jornal Gazeta Mercantil, como repórter no Jornal do Brasil, no O Globo e na Última Hora , sempre na editoria de Economia. Teve ainda experiência na TV Bandeirante, onde, na década de 1980, apresentava programa sobre economia agropecuária, produzido pelo jornal da época O Indicador Rural.
Nos últimos doze anos, foi assessora de imprensa no BNDES. Atualmente é jornalista freelancer.

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Um Comentário

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  1. Lívia, adorei a história e como você bem a contou!!!!!!!!!!!! Ainda mais pois trata-se também de um português! Parabéns e ótimo voltar a ler seus textos. Um beijo. Pedro Soares.

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