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Um banho de culpa

Navegando entre o chuveiro aéreo, o sanduíche frio e as maxi goiabinhas

Sinal indicativo de tráfego de aviões, do chuveiro às maxi goiabinhas. Foto Frank May/DPA
Vai viajar de avião? As opções vão das maxi goiabinhas ao chuveiro a bordo. Foto Frank May/DPA

A conversa em casa era sobre as próximas férias. O que vamos fazer? O problema é que, com a idade, a perspectiva de entrar numa lata de sardinhas voadora, alimentado a maxi goiabinhas e sanduíches gelados me dá cada vez mais calafrios. Como o debate familiar se deu perto do computador, nos dias seguintes começaram a aparecer anúncios de hotéis e passagens nas minhas redes sociais. Experimentem em casa: conversem com alguém sobre uma possível troca de TV, por exemplo, perto do seu desktop e depois fiquem de olho no seu Facebook, Instagram etc. Logo aparecerão os últimos lançamentos de não sei quantas polegadas com telas xyz e som zyx. E a gente achando que o big brother virtual é só para pegar terroristas e bad hombres. Tolinhos.

Depois de serem apresentadas as trufas medievais italianas, os faisões do interior da Mongólia e as poltronas giroscópicas, veio o grand finale: o super mega avião tem chuveiro

A questão é que no meio da enxurrada de anúncios veio um de uma companhia aérea árabe, dessas de luxo. “Conheça nosso super mega avião premium diferenciado!” Eu, desocupado e curioso, cliquei no vídeo.

Depois de serem apresentadas as trufas medievais italianas, os faisões do interior da Mongólia e as poltronas giroscópicas veio o grand finale: o super mega avião tem chuveiro. Isso mesmo, um prosaico chuveiro. A cereja do sundae no luxuoso e sofisticado aeroplano, ao menos na primeira classe, era um chuveiro.

A passagem, cinquenta mil reais.

Levemente paranoico

Como todos os leitores já devem ter reparado, eu sou levemente paranoico (o levemente é falsa modéstia). Tenho o dom, atestado por vários psicanalistas,  de complicar qualquer situação, mesmo as que não me dizem respeito. Logo, o chuveiro aéreo virou uma questão fundamental na minha cabeça: descobri que são apenas dois para os quinze passageiros da primeira classe. Então, são muitas pessoas dividindo poucos chuveiros. O que transforma o super mega avião num cortiço voador, uma cabeça de porco aérea.

Fiquei imaginando a fila de pessoas no corredor da aeronave, com toalha numa mão e sabonete na outra, resmungando na porta do banheiro. Seria mais lógico ter alguma espécie de agenda, para organizar a fila dos milionários. O problema é que as pessoas normais, mesmo as milionárias, costumam tomar banho no mesmo horário. Ou no fim da noite ou no começo da manhã. Num lugar onde todos pagaram cinquenta paus para lavar as partes, quem fica com o horário nobre? Sorteio? Palitinho? Propina da Odebrecht? E mais, depois que o sujeito consegue entrar quem é que tira ele de lá? O cara pagou os cinquenta mil e quer cantar no chuveiro os três atos do Rigolleto? Quem vai interromper?

Digamos que você, depois de muitos tapas e pescoções, conseguiu seu banho no turno das dez, o melhor e mais disputado, logo depois do jantar, e quando chega lá tem uma turbulência? Como é que fica? Perdeu playboy? Fica pelado do lado de fora esperando passar? Ou pior, e se a turbulência acontecer quando você estiver dentro do chuveiro. É igual a tomar banho numa máquina de lavar roupa. E sem amaciante.

Desesperador.

O mais sensato seria dispensar o tal banho, viajar conformado na cadeira giroscópica jantando o faisão mongol com trufas medievais. Mas aí vem a culpa, a grande culpa, de pagar uma fortuna por um luxo que você não vai usar. Os outros milionários, sádicos, vão espezinhar: voou no mega super e saiu sem banho? Loser! Cinquenta mil jogados no ralo.

Graças ao chuveiro do super mega avião da companhia árabe vou me reconciliar com a lata de sardinha voadora daqui.

Se tem algo muito pior do que maxi goiabinha e sanduíche gelado é culpa.

Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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2 Comentários

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  1. Conheço o Leo Aversa fotógrafo, desde o início de seu trabalho. Hoje li com prazer e muitos risos o texto sobre o novo mega avião e seus banheiros.
    Excelente texto, excelente narrativa do que poderia acontecer durante a viagem. As tiradas cômicas são ótimas, dignas decum bom escritor. Parabéns! Aguardo novo texto do colega.

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