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Me, myself and I

Algumas verdades e muitas mentiras sobre a nova onda do Facebook

Estar de férias em Los Angeles e ver a Julia Roberts passando na rua. é um episódio para entrar na galeria de troféus. Foto Miramax Films
Estar de férias em Los Angeles e ver a Julia Roberts passando na rua. É um episódio para entrar na galeria de troféus. Foto: Miramax Films

Nove verdades e uma mentira. O desafio/corrente invadiu o Facebook há alguns dias. De início parecia algo inocente, só uma bobagem. Na verdade, continua sendo, mas é uma bobagem que fala muito sobre a gente. Como todas as bobagens.

Em épocas remotas, na era dos dinossauros, se considerava grande conquista aquilo que era fruto do próprio talento ou esforço. Marcar um gol decisivo, escrever um livro notável, ser bem sucedido no trabalho. Coisa de velho, afinal quem é que tem tempo pra isso hoje em dia, com tanta coisa acontecendo?

As primeiras listas eram só de fatos corriqueiros e frivolidades para divertir os amigos íntimos e familiares. Logo, os mais exibicionistas, ou seja, a maioria, trocaram as banalidades por façanhas ou ao menos o que eles consideram façanhas. Faz sentido: se o Facebook é um lugar onde as pessoas exibem seu dia a dia de forma espetacular e qualquer lacração dura só 24hs, quem tem alguma vantagem vencida fica sem vitrine onde exibir o material reciclado e, principalmente, receber os likes retroativos. Uma injustiça sem tamanho. A corrente das verdades veio a calhar para quem queria requentar seus melhores momentos e esfregá-los na cara do distinto público. Do que adianta eu me achar foda, pica das galáxias, ter mil façanhas no currículo se os outros não sabem disso?

E o que são façanhas em 2017?

Em épocas remotas, na era dos dinossauros, se considerava grande conquista aquilo que era fruto do próprio talento ou esforço. Marcar um gol decisivo, escrever um livro notável, ser bem sucedido no trabalho. Coisa de velho, afinal quem é que tem tempo pra isso hoje em dia, com tanta coisa acontecendo?

Nas listas que estão circulando, vale o que você consome: um jantar no restaurante muito, muito caro, hotéis mais caros ainda, viagens na primeira classe, tiração de onda em carro de luxo. O que seus pais comentariam com discrição, você corre para postar. Ninguém quer perder a chance de posar de rico e poderoso. O desafio das verdades entra como ápice do cabotinismo corrente e ainda tem um quê vingativo: você está agora postando de um hotel cinco estrelas em Nova Iorque? A foto é a dos seus pés no ar lá na frente do avião? Pois veja a minha lista e descubra que já me hospedei num palácio em Paris. E que um Rolls Royce me esperava na porta. E que o motorista era o Brad Pitt. Guerra é guerra.

Outro dado, nem tão recente, mas cada vez mais presente, é a importância das celebridades para as pessoas comuns. No passado, a vida das estrelas era assunto só para aquela tia solteirona e desiludida, que vivia atracada às revistas de TV. Situação essa que era motivo de chacota para o resto da família. Hoje, é quase uma ciência e grande parte dos feitos listados estão relacionados à proximidade com alguém famoso. Ou conheceu um, ou jantou perto de outro ou mesmo tropeçou num terceiro. A simples visão de uma celebridade é o grande acontecimento contemporâneo. Se a visão for no exterior, aí é orgulho master, já que junta também o consumo do parágrafo anterior: estava de férias em Los Angeles e vi a Julia Roberts passando na rua. É um episódio para entrar na galeria de troféus. Se houver algum tipo de interação, por mais irrelevante que seja, aí vira melhor momento da vida: estava em Los Angeles, vi a Julia Roberts e ela me mandou sair da frente. Lacração total na timeline, tipo ganhar o Oscar.

Mas, para não parecer ranzinza e reclamão, também fiz a minha lista.

Só fatos medíocres.

A maneira mais moderna de ser extraordinário.

Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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3 Comentários

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  1. Adorei esse texto. Bem oportuno. Quando vi essa” brincadeira” fiquei chocada , não tinha ninguém ” gauche’ ou como aquele lindo poema de Fernando Pessoa

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