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Consumidores de segunda classe

Roubo de cargas volta a crescer no Rio e deixa cariocas sem receber os produtos comprados

Em 2016 foram quase dez mil casos registrados de roubo de cargas. As favelas, da Zona Note à Zona Sul, são as mais prejudicadas com o desabastecimento. Foto de Tasso Marcelo/AFP
Em 2016, foram quase dez mil casos registrados de roubo de cargas. As favelas, da Zona Norte à Zona Sul, são as mais prejudicadas com o desabastecimento. Foto de Tasso Marcelo/AFP

Diz um velho ditado popular que pior do que roubar é roubar e não poder carregar. E o que dizer daqueles que trabalham, compram, pagam e não recebem? Pois essa tem sido uma realidade cada vez mais comum no Rio de Janeiro e nas cidades da região metropolitana.  Cariocas e fluminenses se tornaram reféns da guerra urbana e se transformaram em consumidores de segunda classe graças a um tipo de crime que só faz aumentar ano após ano: o roubo de cargas.

A gente sofre por todos os lados. Eu não recebo nada em casa. Tenho que buscar tudo na associação de moradores

Mariluce Mariá Souza
Artista plástica

No ano passado, foram registrados quase 10 mil casos no Estado. Precisamente, 9.870, mais que o triplo das ocorrências de 2011: 3.073. A frieza dos números contrasta com o sentimento de impotência da população.

“A gente sofre por todos os lados. Eu não recebo nada em casa. Tenho que buscar tudo na associação de moradores. Se for comprar nas Casas Bahia, até consigo porque tem loja aqui dentro e os entregadores são da comunidade. Mas outras lojas, nem pensar”, conta a artista plástica Mariluce Mariá Souza, de 35 anos, moradora do Complexo do Alemão.

O conjunto de favelas que se espalha pelos bairros de Ramos, Higienópolis, Olaria, Penha, Inhaúma e Bonsucesso está numa área que concentra, historicamente, o maior número de ocorrências de roubos de cargas. Engana-se, no entanto, quem pensa que o problema é restrito àquela localidade. Moradores de Madureira, Ricardo de Albuquerque, Brás de Pina, Pavuna e Honório Gurgel, também na Zona Norte, Campo Grande, Bangu e Realengo, na Zona Oeste, além de boa parte da Baixada Fluminense, também são vítimas dos ladrões de cargas.

Na Vila Kennedy, Zona Oeste da cidade, os moradores vivem numa espécie de “terra de ninguém”. Entregas em domicílio, nem pensar. Seja qual for a mercadoria.

“Quando vamos comprar algo em uma loja, na hora de dar o endereço eles avisam logo que é para retirar no local. Nem cerveja e refrigerante os bares conseguem. Tem que sair para comprar fora da Vila Kennedy e carregar. Algumas vezes, os bandidos não roubam para vender, mas para distribuir na comunidade. A carga de um caminhão da Coca-Cola, roubada no mês passado, foi distribuída de graça. Eu não pego, mas meus vizinhos nem querem saber. Agora é que deu uma parada, porque o chefe (o traficante Max Andre Lopes Santos, o Naia) mandou, lá da cadeia, acabar com o roubo na comunidade”, contou um morador.

A situação é dramática também na Zona Sul. Na Rocinha, distribuição de bebidas é tema proibido. Apesar de contar com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que dispõe de 700 homens, a voz corrente nos becos é de que apenas uma cervejaria pode entrar no morro. Para isso, teria de deixar como “pedágio”, literalmente, a carga de um caminhão para os chefes do tráfico. “A cervejaria que aceita o pedágio, sobe. A que não aceita, nem entra”, conta uma fonte ouvida pelo #Colabora.

A famosa lei do silêncio (“Não sei, não ouvi, não vi nada”), que era comum a outros tipos de crimes mais violentos, também chegou ao roubo de cargas. Duas das principais cervejarias do país procuradas pela reportagem (Ambev e Grupo Petrópolis) não comentam o tema. O mesmo acontece com grandes magazines, como as Casas Bahia e o Ponto Frio.

Distribuição de bebidas é um tema proibido na Rocinha. Foto de Ana Jobin/Only World
Distribuição de bebidas é um tema proibido na Rocinha. Foto de Ana Jobin/Only World

Já o presidente da ASSERJ (Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro), Fábio Queiroz, não teme falar. E traça um panorama do que vem acontecendo na região metropolitana do Rio.

“O varejo adotou diversas medidas de segurança devido ao aumento do roubo de cargas. As principais são mudanças de rotas e de horários de circulação, e investimentos em escoltas armadas. Se continuarmos sem mudanças significativas neste quadro, corremos sério risco de desabastecimento da população dos produtos mais visados pelo crime, como a carne, por exemplo. Isso porque cada vez mais fornecedores deixam de entregar no Rio de Janeiro, preferindo destinos mais seguros. Além disso, já é possível perceber um aumento de até 35% no preço das mercadorias mais visadas, devido ao aumento das apólices de seguro (quando as cargas são seguradas), custos de logística, mudança de rotas, etc”, explica.

O varejo adotou diversas medidas de segurança devido ao aumento do roubo de cargas. Se continuarmos sem mudanças significativas neste quadro, corremos sério risco de desabastecimento da população dos produtos mais visados pelo crime, como a carne, por exemplo

Fábio Queiroz
Presidente da ASSERJ

Os carteiros também sofrem com a violência. Somente em 2016, o número de roubos de carga postal no Estado cresceu 70% em relação ao ano anterior, segundo os Correios, que por questões de segurança não divulgam estatísticas ou valores. O número de Áreas de Restrição de Entrega Porta a Porta de Encomendas (ARE), no entanto, é cada vez maior. Elas são estabelecidas tendo como referência o mapa de risco fornecido pelos órgãos de segurança pública, baseados na incidência de assaltos a veículos de carga dos Correios.

“Essa restrição temporária de entrega de encomendas tem o objetivo de garantir a segurança dos trabalhadores e dos clientes e a integridade das encomendas postais. A entrega de correspondências (cartas, boletos bancários, faturas, telegramas, etc) nessas localidades continua sendo feita, pois esses objetos de pequeno valor comercial não são alvos de assaltos. Porém, em algumas localidades, os carteiros são impedidos de entrar, até mesmo com as correspondências, por motivo de violência”, explicaram os Correios, em nota.

Escrito por Caio Barbosa

Caio Barbosa

É jornalista desde 2000. Já tendo passado por diversas áreas de uma redação, de Polícia à Gastronomia, de Esportes ao Carnaval, incluindo Política e comportamento. Começou no jornal "O Fluminense", mas passou também pelo Diário Lance!, Globo.com, Extra, Grupo UOL/Folha e O DIA. Conquistou o Prêmio Embratel de jornalismo, em 2015, com uma série especial sobre os 50 anos do Golpe Militar.

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