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Caia de boca no chocolate. Sem culpa

Associado a propriedades medicinais e à melhoria do humor, o cacau, historicamente, teve importante função social

Coelhinhos e ovos de chocolate: símbolos da “vida nova”.  Foto: Patrick Pleul/dpa

(Judy Anne Swift*) Quem não gosta de chocolate? Embora alguns afirmem preferir salgados – na minha experiência, batatas fritas são citadas como equivalente por essas pessoas estranhas –, o chocolate tem um lugar especial no coração de muitos. E a Páscoa lhes dá a oportunidade perfeita para consumir grande quantidade.

A história de como uma festa cristã que celebra a ressurreição de Jesus se uniu a uma mistura de cacau, gordura e açúcar é interessante e demonstra como o alimento pode significar muito mais que seu conteúdo nutricional, e até mesmo sua experiência sensorial.

Os primeiros ovos de Páscoa de chocolate apareceram na Europa no século XIX. Eram difíceis de fazer e caros

Há muitas teorias e poucas evidências conclusivas, mas existe um consenso de que ovos e coelhos são símbolos antigos da vida nova e foram usados ​​em tempos pré-cristãos, na época do equinócio da primavera. Eles finalmente se fundiram com a prática religiosa cristã e hoje são levados muito a sério.

Os primeiros ovos de Páscoa de chocolate apareceram na Europa no século XIX. Eram difíceis de fazer e caros. Só quando as técnicas de fabricação avançaram suficientemente, eles se tornaram amplamente disponíveis. Em 1893, a Cadbury vendia 19 ovos de chocolate diferentes.

Mas o chocolate, é claro, tem uma história muito mais profunda. Descrito nos antigos textos maias como “um presente dos deuses”, o cacau tem sido associado a propriedades medicinais.  É um dos alimentos mais desejados, particularmente entre as mulheres, e está relacionado à promoção de sentimentos positivos.

Como seres humanos, precisamos de uma variedade de alimentos, e não apenas como combustível para manter nosso corpo funcionando. Consumir por prazer e comemoração é normal e necessário

Historicamente, também teve importantes funções sociais. Nos anos 1800, por exemplo, o Movimento da Temperança  promoveu bebidas de cacau como alternativa ao álcool. De fato, muitas marcas bem conhecidas – Cadbury, Rowntree, Frys – foram fundadas por quakers, com foco na reforma social.

Hoje, porém, o chocolate é sinônimo de um estilo de vida pouco saudável, junk food e obesidade. O guia da Public Health England (anteriormente Eatwell Plate) já não permite que o chocolate faça parte de um saudável “prato” de comida. Em vez disso, é relegado a um canto, na companhia de batatas fritas (má sorte, amantes de salgados), biscoitos e ketchup.

Amado especialmente pelas mulheres, o chocolate melhora o humor. Foto: Achassent/ BSIP

É assim que o chocolate, impertinente mas agradável, enche de culpa os consumidores que o apreciam.  Mas, como não há conclusão científica sobre se causa vício, as pessoas podem dar vazão ao desejo incontrolável de comê-lo.

Considerando sua importância psicológica e social, não é realista nem desejável demonizá-lo ou procurar eliminá-lo da dieta. Mesmo o Guia Eatwell admite que o chocolate está na categoria “Coma pequenas quantidades mais espaçadamente”. Mas como podemos construir uma relação mais positiva com esse alimento?

Silenciosamente, adotemos “atenção total”.  Ela pode ser definida como estar aberto e não julgar suas experiências imediatamente, incluindo comportamento, sensações corporais, pensamentos e sentimentos. Quando você decide não julgar, respeita a si mesmo e aos alimentos. Respeitar a comida significa que você precisa ter tempo para apreciar o seu sabor. Isso permite que você esteja atento aos sentimentos de prazer e saciedade. Simplesmente apreciando o chocolate pelo que ele é – não mais, não menos.

Uma experiência recente (nos Estados Unidos), apoiada pela Associação Nacional dos Confeiteiros, demonstrou que comer chocolate de uma forma atenta melhora o humor das pessoas. Talvez uma abordagem consciente possa nos ajudar a obter o máximo prazer da experiência e afastar-nos de uma visão excessivamente simplista de alimentos como bons ou maus.

Como seres humanos, precisamos de uma variedade de alimentos, e não apenas como combustível para manter nosso corpo funcionando. Consumir por prazer e comemoração é normal e necessário. O que nos leva a fazer algumas perguntas aos órgãos de saúde pública e cientistas nutricionais: ao desenvolver orientações dietéticas, em que medida eles levam em conta as necessidades psicológicas e sociais?

Nesta Páscoa, ao escolher um ovo de chocolate, por seu simbolismo religioso e cultural, ou apenas porque é tão bonito, coma sem culpa.

* Judy Anne Swift é professora associada de Nutrição Comportamental da Universidade de Nottingham, Inglaterra.

Tradução: Trajano de Moraes

Escrito por The Conversation

The Conversation

The Conversation é uma fonte independente de notícias, opiniões e pesquisas da comunidade acadêmica internacional.

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