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Bem-vindos à distopia, o novo normal

As notícias negativas são muito mais numerosas do que aquelas que dão alguma esperança em relação ao futuro do planeta

O planeta em chamas: humanidade só evitará o desastre se investir em ciência. Foto: VSC / Science Photo Library

Dezenas de milhares de pessoas se reuniram em Washington, no dia 21 de abril, na Marcha Pela Ciência, para protestar contra os cortes efetuados pelo governo Trump nos orçamentos de atividades científicas. Outras 600 manifestações aconteceram no mundo, pela mesma causa.

Há quem tenha visto a mudança do clima como epicentro do movimento. Muito possível. É um fenômeno que pede medidas urgentes em todo o mundo, e a humanidade somente terá chances de evitar o desastre se houver mais, e não menos, investimentos em ciência. A marcha mostra uma preocupação crescente, e transmite a mensagem de que Trump não irá conseguir terminar seu mandato se, entre outras bravatas, quiser deixar para trás terra arrasada.

Fomos informados de que a exposição ao dióxido de nitrogênio, produzido principalmente pela queima de diesel, gera sentimentos comparáveis em intensidade à perda de um emprego, ao fim de uma relação ou à morte de um ente próximo.

No mesmo dia dos protestos, anunciava-se que a Grã-Bretanha teve pela primeira vez desde a Revolução Industrial um dia útil sem uso de carvão. O combustível mais sujo respondeu por 9% da geração da eletricidade da nação em 2016, uma queda significativa em relação ao ano anterior, quando o percentual foi de 23%. Isso teria sido inimaginável há 10 anos, e só foi possível com o crescimento da participação de energia alternativa, como eólica e solar, no mix energético.

A poluição do ar pelo diesel provoca sentimentos comparáveis ao luto. Foto: Jolvot/ BSIP

A marcha e a notícia sobre o carvão são fatos positivos que dão esperança em um planeta no qual a distopia parece ser o novo normal. Nós precisamos deste sentimento. E como precisamos. De outra forma, o impacto das notícias negativas, em muito maior número, nos fariam naufragar em um mar cada vez mais encapelado.

A humanidade acorda, mas começa, mais informada, a encarar também um pesadelo. Mesmo a mídia mais conservadora se dobra à constatação de que não há como negar os riscos derivados de ações inconsequentes, ou da falta de ação, para mitigação dos danos já causados pela mudança do clima.

Na mesma semana das manifestações, fomos informados de que a exposição ao dióxido de nitrogênio, produzido principalmente pela queima de diesel, gera sentimentos comparáveis em intensidade à perda de um emprego, ao fim de uma relação ou à morte de um ente próximo.

Um estudo descobriu uma “associação significativa e negativa” entre a satisfação com a vida e os níveis de poluentes, que causam problemas pulmonares. O nome do trabalho é sugestivo: “O ar limpo pode fazer você mais feliz?”.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, três milhões de mortes prematuras por ano, em todo o mundo, estão ligadas à exposição à poluição fora de casa

A pesquisa focou no cenário britânico, mas seus resultados podem ser estendidos a todo o planeta, já que todos necessitamos de transporte e estamos colaborando com a poluição, de uma forma ou de outra. No caso europeu, esta poluição foi causadora de dezenas de milhares de mortes prematuras. Os carros a diesel emitem cerca de seis vezes mais gases perigosos do que o permitido por legislação local. Estes mesmos veículos produzem dez vezes mais gases tóxicos do que caminhões pesados e ônibus.

O prefeito de Londres tenta impor um pedágio de R$ 35 para quem tem carros poluentes e quer trafegar no centro da cidade, e a medida pode valer para as margens sul e norte da metrópole. A ação tem caráter exemplar.

A Organização Mundial de Saúde tem dados mais abrangentes. Segundo ela, três milhões de mortes prematuras por ano em todo o mundo estão ligadas à exposição à poluição fora de casa. Grande parte dela é composta pelas emissões dos carros, a diesel ou não.

Como fazer frente a isso? Cidades como Oslo, Bogotá, e Hamburgo têm programas importantes de criação de faixas para bicicletas (enquanto o prefeito de São Paulo, guiado pelas políticas de exclusão, trabalha em sentido contrário). Outras cidades usam pedágios e rodízios. Ou incentivam áreas de circulação de pedestres, como o Times Square, em Nova York, uma zona de 30 mil metros quadrados. As cidades mais avançadas com tais medidas são, além das mencionadas, Paris. Londres, Madri, Cidade do México, Berlim, Atenas, Tóquio, Milão, Bruxelas, Copenhague, Seoul e Helsinki.

Ainda na mesma semana, informações assombrosas, em outra escala espacial e de tempo: um novo estudo mostra que, em meados do século, humanos estarão causando a mais rápida mudança do clima em cerca de 50 milhões de anos. Se queimarmos todo o combustível fóssil disponível, será a mudança mais rápida em 420 milhões de anos, o período estudado. Respire fundo, enquanto é possível.

Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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