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Inimigo comandará agência ambiental americana

Trump indica promotor que processou a EPA para dirigir o órgão

A indicação do procurador geral de Oklahoma, Scott Pruitt, como chefe da EPA, causou consternação entre ambientalistas. Foto de Eduardo Munoz Alvarez/AFP
A indicação do procurador geral de Oklahoma, Scott Pruitt, como chefe da EPA, causou consternação entre ambientalistas. Foto de Eduardo Munoz Alvarez/AFP

No dia 22 de abril de 1970 acontecia nos Estados Unidos o primeiro Dia da Terra. Foi um movimento iniciado pelo senador democrata Gaylord Nelsol, com a preocupação de que se criasse uma agenda ambiental para o país. Participaram duas mil universidades, dez mil escolas primárias e secundárias e centenas de comunidades. Ainda pouco se sabia, fora da academia, sobre o aquecimento global e a mudança do clima. Tratava-se do que era mais visível e palpável, principalmente a poluição do ar e da água.

Uma pesquisa Gallup revelou que 81 por cento dos respondentes afirmaram se preocupar “muito” ou “razoavelmente” com a poluição de rios, lagos e reservatórios. Oitenta por cento disseram o mesmo sobre água potável, 77 por cento sobre a contaminação de solo e água por lixo tóxico e 74 por cento com a poluição do ar.

A pressão foi grande, e levou o presidente Richard Nixon a criar em 2 de dezembro do mesmo ano a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês). À época, pessoas eram hospitalizadas em números recordes em dias de ar muito poluído, e rios entravam espontaneamente em combustão porque serviam como depósito comum de poluentes tóxicos. Hoje, está claro, que os custos de prevenir tais situações é muito menor que o de remediá-los, e que tais assuntos não podem ser ignorados.

Em março deste ano, uma pesquisa Gallup revelou que 81 por cento dos respondentes afirmaram se preocupar “muito”  ou “razoavelmente” com a poluição de rios, lagos e reservatórios. Oitenta por cento disseram o mesmo sobre água potável, 77 por cento sobre a contaminação de solo e água por lixo tóxico e 74 por cento com a poluição do ar.

O governo de Barack Obama teve papel muito importante com a agenda positiva na questão ambiental, resolvendo por decreto aquilo que um congresso dominado por republicanos e interesses ligados a setores como o de energia não deixaram passar.

Entre 2002 e 2013, o movimento Beyond Coal ajudou a brecar a construção de 184 usinas de carvão. Foto Mark Wilson/Getty Images/AFP
Entre 2002 e 2013, o movimento Beyond Coal ajudou a brecar a construção de 184 usinas de carvão. Foto Mark Wilson/Getty Images/AFP

Assim como foi fundamental na costura do Acordo do Clima de Paris, negociado por 195 países em conferência em dezembro de 2015. Até dezembro deste ano, foi assinado por 194 membros, 118 dos quais já o ratificaram, e entrou em vigor em novembro de 2016. Resumindo, seu objetivo é proteger o planeta de uma catástrofe provocada pela emissão de gases de efeito estufa. Foi um feito histórico, após muitas tentativas fracassadas por divergências e questões econômicas e geopolíticas.

Todas estas conquistas podem ir agora por água abaixo. O presidente eleito nomeou o procurador geral de Oklahoma, Scott Pruitt, como chefe da EPA – o que causou consternação entre ambientalistas. Pruitt, que expressara ceticismo sobre a ciência da mudança do clima criada por humanos, juntou-se a outros procuradores para processar a EPA por sua proposta de um Plano de Energia Limpa, assim como mais esforços de cortar emissões de metano do setor de gás e petróleo. Para usar uma expressão batida, é a raposa sendo posta para tomar conta do galinheiro.

Ainda, Trump acrescentou ao primeiro escalão da EPA cinco pessoas que ou expressaram dúvidas sobre a mudança do clima ou lutaram contra regulações para combatê-la.

Um dia depois de Trump ter declarada sua vitória, Pruitt participou de um programa de rádio, “Explorando Energia”. Nele, afirmou que a nova administração eliminaria os decretos e regulações do governo Obama.

Ao escolher Pruitt, Trump manda uma clara mensagem de que cumprirá sua promessa de campanha de ignorar regulações ambientais que, segundo ele e muitos outros republicanos, prejudicam os negócios. No entanto, centenas de estudos provam que uma economia em crescimento é perfeitamente compatível com a melhora do ambiente. Na verdade, a redução da poluição traz enormes benefícios econômicos, como a redução dos custos de saúde e seus efeitos sobre a produtividade.

Como procurador de Oklahoma, Pruitt liderou a luta conta as regulações da EPA do governo Obama, incluindo a Lei das Águas, o Plano de Energia Limpa e as regulações de emissão de metano. O novo titular da agência é um ardente defensor da utilização de combustíveis fósseis, e afirma que Obama estava tentando quebrar o setor de energia suja.

O histrionismo de Trump não quer dizer que triunfará com facilidade em suas iniciativas. Irá lutar contra a opinião pública, o consenso da comunidade científica e dezenas de grupo ambientais de considerável poder.

A ação do movimento Beyond Coal é um exemplo de como a determinação de proteger o meio ambiente pode gerar resultado de difícil reversão. Entre 2002 e 2013 a iniciativa ajudou a brecar a construção de 184 usinas de carvão. O que eles fizeram foi convencer líderes locais em todo o país que continuar usando o carvão não é bom nem para a economia, nem para a saúde da população. Com isso, as usinas de carvão foram substituídas por fontes alternativas de energia.

É também bastante estúpido ignorar que os preços de energia eólica e solar tiveram uma queda significativa em anos recentes, graças à escala, novas tecnologias e materiais.

Donald Trump quer ignorar. Muitas pessoas votaram nele por acreditar em suas promessas da volta aos bons e velhos tempo, com muitos empregos na mineração de carvão e a produção de bens manufaturados. Esqueceram de olhar em volta, ou para seus próprio cotidianos, e perceber que a revolução tecnológica alterou este quadro irreversivelmente. Mas o novo presidente pode fazer voltar parte dos anos 1970 – aquela em que as pessoas não tinham um ar seguro para respirar.

Trump ignora também que a mudança do clima é uma ameaça existencial de uma maneira que a poluição não é, e isto pode botar a perder a melhor chance de cooperação internacional para conter esta ameaça.

A nova EPA, porém, irá se aproveitar do fato de que a mudança do clima é uma ameaça em grande parte invisível e difícil de explicar ou demonstrar para o público em geral – uma das razões pelas quais organizações com os bolsos forrados pela indústria do petróleo têm tido sucesso em embaralhar a questão.

Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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Um Comentário

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  1. Claro que as decisões extemporâneas do Trunp & cia serão um super desafio, adicional, para as necessárias e emergenciais ações de combate às mudanças climáticas colocadas em movimento pelo acordo de Paris e o governo Obama. Mas, creio que o jogo ainda não está jogado. Será que ele vai realmente conseguir alcançar seus intentos? O mais importante, creio, será acompanhar como a sociedade e as instituições americanas vão reagir. Se vão pra o enfrentamento ou não. Como vão reagir, se articular e agir as organizações ambientalistas, a academia, os setores da economia ligados, às energias renováveis, a aposição no congresso, o judiciário, a suprema corte e por fim a mídia e a opinião pública.
    Se esse amplo conjunto de segmentos da sociedade americana não conseguir barrar e reverter as iniciativas de marcha ré e vencerem essa prova de fogo, não dá nem para avaliar as consequências, pois o mínimo que vai acontecer é um efeito em cascata dessas ideias em outros países e aí será o salve-se quem puder. Por isso, acho que o jogo não está jogado. Os próximos meses serão decisivos. A ver…

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