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Rio, ame-o ou deixe-o

A difícil tarefa de torcer sem perder o senso crítico

O lixo nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas mostra que nem tudo é festa na cidade
O lixo nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas mostra que nem tudo é festa na cidade

Os mais jovens talvez não se lembrem desse slogan. A versão original, que tinha o Brasil no lugar do Rio, fez sucesso no início dos anos 70. Criado pelo governo militar, podia ser visto em campanhas na TV, no rádio e em plásticos orgulhosamente colados nos carros. Se o país havia acabado de se livrar da “ameaça comunista” e vivia em pleno “milagre econômico”, que razões teriam os brasileiros para reclamar da vida? Temas como liberdade de expressão, eleições livres e diretas, fim das torturas, pareciam detalhes. Ou, como simplificam alguns ainda hoje: um mal necessário.

O mundo é cinza e a unanimidade é burra. Os cidadãos de Oslo, Cracóvia e Estocolmo, por exemplo, quando ouvidos democraticamente, disseram não aos Jogos Olímpicos. Entenderam que o dinheiro dos impostos que pagam deveria ser investido em outras áreas. Aqui, sequer fomos consultados.

Quarenta anos depois, guardadas as devidas e enormes diferenças, cresce cada vez mais o movimento dos que acham que criticar os Jogos Olímpicos do Rio é falta de patriotismo, um atentado contra o lendário alto astral carioca. Coisa de urubu, como gosta de repetir o prefeito Eduardo Paes. Se você não está apaixonado pelo que acontece na cidade, melhor ir para Cuba, São Paulo, Paris ou outro lugar exótico qualquer. Só um enorme espírito de porco pode continuar discutindo saneamento, segurança e habitação, quando temos os BRTs, o VLT e o Porto Maravilha. Custou caro? Quem se importa? O calçadão está cheio de turistas felizes e amanhã tem festa na Casa da Jamaica.

Quatro décadas se passaram e continuamos com uma discussão superficial sobre o país, a cidade, a política e a nossa vida. Não conseguimos ir muito além do ser contra, a favor, achar feio ou bonito. Nessa disputa acirrada pela razão não há espaço para o meio termo, a ponderação. Conceitos como tese, antítese e síntese deixam de fazer sentido. Se Platão tivesse vindo aos Jogos, junto com a delegação da Grécia, estaria falando sozinho numa praça, sendo chamado de louco.

A cerimônia de abertura foi linda, criativa, inteligente. Ponto para os que são a favor. O encanamento da Vila Olímpica furou. Gol do adversário. Turista mata assaltante. Dois a um para os urubus. A Orla Conde está uma beleza. Jogo empatado. Torcer para as meninas do handebol e criticar a sujeira nas lagoas da Barra ao mesmo tempo não pode. Uma coisa ou outra. O problema desse raciocínio estreito, cada vez mais difundido pelo país, é que ele pode desaguar no voto. Os que admiram os anéis olímpicos certamente votarão no candidato do prefeito. Mas ele espancou a mulher. Detalhe, mais um detalhe.

A oportuna mensagem ecológica da cerimônia de abertura, nem sempre relacionada com a realidade
A oportuna mensagem ecológica da cerimônia de abertura, nem sempre relacionada com a realidade

Se até o Facebook já trocou o tradicional sinal de positivo por outros seis que incluem revolta e tristeza, por que se contentar com o preto e o branco? O mundo é cinza e a unanimidade é burra. Os cidadãos de Oslo, Cracóvia e Estocolmo, por exemplo, quando ouvidos democraticamente, disseram não aos Jogos Olímpicos. Entenderam que o dinheiro dos impostos que pagam deveria ser investido em outras áreas. Aqui, sequer fomos consultados.

O Instituto Ethos criou um movimento chamado “Jogos Limpos”, para avaliar o nível de transparência dos grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O nível de transparência da Rio 2016 é baixo. Pior do que a Copa.

Aliás, quanto custará essa festa? Fala-se em algo em torno de R$ 40 bilhões, incluindo investimentos públicos, privados, federais, estaduais e municipais. Mas ninguém tem muita certeza. Em 2011, o Instituto Ethos criou um movimento chamado “Jogos Limpos”, para avaliar o nível de transparência dos grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Eles usam ferramentas como a Lei de Acesso à Informação para saber se os números existem, se estão disponíveis e se a população participou ou não das decisões. O nível de transparência da Rio 2016 é baixo.  Pior do que a Copa.

O fato é que, em 2009, o Rio foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos com a promessa de que chegaríamos em agosto de 2016 com uma cidade transformada. Não chegamos. Temos uma baia linda que nos envergonha pela quantidade de esgoto. Nos conformamos com a presença do Exército nas ruas na esperança de que a violência seja menor. Continuamos achando normal o fato de que um em cada cinco cariocas viva em habitações subnormais (definição do IBGE). Faz parte do nosso charme.

Avançamos em mobilidade urbana. O metrô, os BRTs e os BRSs são movimentos consistentes em favor do transporte coletivo, apesar de ainda não funcionarem como deveriam. O carioca continua levando, em média, duas horas para se locomover de casa para o trabalho. Medalha de ouro em falta de mobilidade. Os investimentos em Madureira, Deodoro e no Porto do Rio foram bons, apesar de não representarem uma mudança consistente na vida da população mais carente. A Vila dos Atletas não se transformará num legado social para a cidade, diferentemente do que aconteceu em muitas outras sedes olímpicas. Teremos mais condomínios de classe média, mais favelas em volta e mais poluição nos rios. Detalhes, detalhes e mais detalhes. Onde será que eu botei a minha camisa da seleção?

Um Comentário

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  1. Agostinho Vieira sua reflexão é mais que bem vinda, absolutamente necessária. Ainda que vivamos na “era da comunicação” e com todos os recursos disponíveis para instituir canais de consulta e diálogo com a sociedade, assistimos a municipalidade operar com uma lógica imperial, como se o alcaide fosse um ser escolhido pelo divino, cujas decisões não cabem questões, dúvidas ou contestações, como se aos seus atos restasse apenas a glorificação. Sua lembrança do slogan “ame-o ou deixe-o” não poderia ser mais pertinente e emblemática das questões que trouxe à tona. PARABÉNS!

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