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Os tanques e o preço do Suflair

Na Sherwood carioca, ladrão de carga corre o risco de virar Robin Hood

Tanque do exército marcando presença em frente ao Museu do Amanhã. Foto Luiz Souza/NurPhoto
Tanque do exército marcando presença em frente ao Museu do Amanhã. Foto Luiz Souza/NurPhoto

Sônia Maria de Jesus não é de Jesus por acaso. Ainda adolescente foi expulsa de casa porque engravidara de um namorado. Quando o menino nasceu, seus pais a aceitaram de volta. Mas com uma condição: o garoto não seria registrado como seu filho. A vida marota reservou outras pancadas para a doméstica, hoje com quase 60 anos. Mas ela sobreviveu ao marido violento, aos patrões sem noção e criou os dois filhos, o segundo tem Jesus no sobrenome, assim como o neto.

O mais novo, André, trabalha como motorista de caminhão, o que vem deixando Sônia sem dormir há bastante tempo. Pudera, só este ano, segundo o Instituto de Segurança Pública, 24 caminhões foram assaltados, em média, todos os dias no Rio de Janeiro. De Itaguaí, onde mora, ela sai de madrugada para trabalhar em Ipanema. Pelo caminho pôde acompanhar, com certo alívio, a chegada dos “meninos do exército” e os tanques que ocuparam algumas ruas e pontos turísticos do Rio.

Em Coelho Neto eu compro três embalagens de Qualy por 10 reais. Todo mundo compra. Nem no aniversário do Guanabara encontro tão barato

Sônia Maria de Jesus
Doméstica

Outro dia, no metrô, segunda parte da jornada de três de horas entre a casa e o trabalho, se permitiu uma extravagância e comprou uma barra grande de chocolate Suflair: “Custou só dois reais”, repetia feliz com ares de chocólatra que fez um negócio da China. “Mas Sônia, e o roubo de cargas, e o André?”, perguntou o patrão sem noção e estraga prazeres.

Uma pesquisa rápida no Google mostra que, nos lugares com as melhores ofertas, o tal chocolate aerado da Nestlé pode ser encontrado até por R$ 3.99, jamais por R$ 2. Na verdade, alguns camelôs no Centro já vendem 3 por R$ 5, o que dá menos de R$ 1,70 por unidade. Será que essas barras estão estragadas, fora da validade?  Claro que não. Mostrar a data de fabricação é um dos principais trunfos dos vendedores do metrô.

A Suflair que faz a alegria dos passageiros no Metrô e nos trens do Rio. Reprodução
A Suflair que faz a alegria dos passageiros no Metrô e nos trens do Rio. Reprodução

Sônia sabe que existe uma ligação óbvia entre os caminhões roubados e o Suflair a dois reais. A mesma do Mentos a um real e do carregador de celular a cinco. Sorri envergonhada e dá de ombros como se perguntasse: “Estou errada mesmo?”

O que fazer?

Se a mãe que fica sem dormir por conta do filho caminhoneiro é a mesma que compra o chocolate roubado em promoção, que vê a sua aposentadoria ser garfada pelo governo e que não consegue receber a geladeira nova em casa porque na área onde mora tem muito assalto. “Não entregamos nessa região”.

O que fazer?

Se o empresário que reclama, com razão, do roubo de carga é o mesmo que aumenta os preços para garantir a margem, que sonega impostos para ser competitivo e que apoia o político amigo em troca de favores.

O que fazer?

Se o governo que bota o exército nas ruas é o mesmo que reduz os investimentos em educação, saúde e segurança, que retira direitos trabalhistas, que dificulta a aposentadoria, que aumenta os impostos para preservar o superávit primário, que reduz o salário dos servidores e compra votos para manter a boquinha.

Tropas e tanques nas ruas parecia ser uma solução simples. Mas não é. Segunda a Federação de Transporte de Cargas (Fetranscargas), o número de roubos cresceu 21% mesmo com o reforço de 300 homens da Força Nacional de Segurança. E agora? Há 50 anos, o humorista Stanislaw Ponte Preta já dizia: “Ou restaura-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Pelo visto, não era piada.

Será que nesta Sherwood de desmandos, desgovernos e falta de ética em que vivemos, vamos acabar transformando os ladrões de carga em Robins Hoods modernos? Sônia de Jesus, a dublê de doméstica e economista responde: “Em Coelho Neto eu compro três embalagens de Qualy por 10 reais. Todo mundo compra. Nem no aniversário do Guanabara encontro tão barato”. Talvez seja a famosa mão invisível do mercado agindo outra vez.

Soldados do exército na praia de Ipanema. Foto Mauro Pimentel/AFP
Soldados do exército na praia de Ipanema. Foto Mauro Pimentel/AFP

13 Comentários

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  1. Essa semana peguei o metrô e a menina vendia suflair a R$ 2. Insistia em dizer que não era roubado. Achei uma mudança ver as pessoas se olhando, desconfiando , comentando. Ninguém comprou.

    • O que compra a bala perdida de amanhã são os nossos votos, nossa passividade diante desse cenário político e a educação precária da população.

  2. Comenta-se muito o roubo de cargas, evidente que seja necessário, porém nenhuma ação repressiva ao comércio informal nos transportes do Rio de Janeiro, ruas e praças.

  3. Triste realidade. Raros são os que se preocupam com inversão de valores. Mesmo sabendo que estimulam roubo de cargas e consequentemente a vida de caminhoneiros. Que mundo é esse?

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