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Onde tem tiroteio?

Sistema colaborativo usa redes sociais para alertar usuários sobre conflitos na cidade

De acordo com a OTT, neste início de 2017 já tivemos 1238 tiroteios e 101 arrastões em todo o estado. Foto de André Teixeira
De acordo com a OTT, neste início de 2017 já tivemos 1238 tiroteios e 101 arrastões em todo o estado. Foto de André Teixeira

Alguém disse que o Brasil não é para amadores – e o Rio levou o aforismo ao extremo. Atualmente, ter cuidado com os locais por onde se anda, fazer os caminhos corretos e fugir das áreas de risco está na ordem do dia. Mas nem sempre isso é fácil. Com tiroteios, arrastões e problemas de segurança de todos os tipos, em todas as áreas, fica cada vez mais difícil para os cariocas encontrar formas de se proteger. E é exatamente nessa onda que chegou a rede “OTT-RJ – Onde tem tiroteio”.

Todo mundo quer se proteger e proteger sua família. Queremos evitar que as pessoas corram perigo, que entrem nos locais de conflito, nas áreas onde estão ocorrendo tiroteios. Até ladrão ou traficante não quer sua família atingida por bala perdida.

Henrique Caamaño
Um dos administradores da OTT

Seria até engraçado, se não fosse trágico. A OTT vem arregimentando cada vez mais seguidores, com uma quantidade de histórias sobre violência urbana de deixar qualquer um aterrorizado. O sistema funciona mais ou menos como o polêmico Twitter da Lei Seca, contando com informações vindas dos seguidores, mas com regras mais rígidas. Todos os alertas sobre tiroteios, publicados em diferentes redes sociais, são verificados. Para isso, entre os assíduos colaboradores, cerca de 90 são usados para a checagem dos dados, muitos deles vivem em favelas.

É o retrato de uma cidade em conflito constante. E não adianta contestar, dizer que são fatos isolados, em regiões perigosas. Basta um dia acompanhando as páginas da OTT para derrubar essa teoria. Difícil é passar algumas horas sem um post alertando para tiroteios em uma determinada região.

Terça-feira, dia 20, balanço do dia: 18 tiroteios, nenhum arrastão.

Quarta-feira, 21, dia tumultuado com o sequestro de um ônibus em um dos acessos à Ponte Rio. Niterói dominou o noticiário por horas.

É claro que estava tudo na OTT, até as imagens de segurança da Eco Ponte, mostrando o fluxo de carros, com a atualização em posts a cada nova informação. Enquanto isso, a manhã já tinha registrado dois outros tiroteios. No total, aquela quarta-feira teve um balanço de 33 tiroteios e nenhum arrastão, com o mês de março somando, até então, 337 tiroteios e 21 arrastões. Em menos de três meses, 2017 já registrava, via OTT, 1238 tiroteios e 101 arrastões em todo o estado. Isso é o mínimo, porque deve haver ocorrências que não chegam ao sistema colaborativo.

Policiais e traficantes trocam tiros na Vila Cruzeiro, na Penha. Foto de Marcos Tristão
Policiais e traficantes trocam tiros na Vila Cruzeiro, na Penha. Foto de Marcos Tristão

A ideia de criar a página surgiu no início do ano passado. O petroleiro Benito Quintanilha sempre usava seu perfil pessoal para postar alertas sobre tiroteios e casos de violência na cidade. Com mais e mais colaboradores, resolveu criar a OTT, em parceria com o físico Marcos Baptista e o analista de sistemas Dennis Coli.

A página foi ganhando seguidores fiéis e colaboradores assíduos, como o técnico em logística Henrique Caamaño, de 49 anos, que desde outubro de 2016 faz parte do time de administradores. “Gostei muito da ideia de ter um grande número de informações no mesmo lugar. Todo mundo quer se proteger e proteger sua família. Queremos evitar que as pessoas corram perigo, que entrem nos locais de conflito, nas áreas onde estão ocorrendo tiroteios. Não encontramos dificuldades para obter esses dados, isso é de interesse de todo mundo. Até ladrão ou traficante não quer sua família atingida por bala perdida. Nós não prejudicamos ninguém. Só queremos salvar vidas”, diz Caamaño, explicando por que eles contam com muitos colaboradores em comunidades e não enfrentam problemas com os órgãos públicos, nem sofrem represálias por parte dos marginais.

A página da OTT no Facebook tem mais de 57 mil curtidas. A rede também está no Instagram, no Telegram (com cerca de 5 mil pessoas), no Twitter (com mais de 70 mil seguidores), em canais de áudio e vídeo, além de ter um canal para rádio. No Whatsapp já são 8 grupos, já que a ferramenta só permite até 250 participantes em cada um. Para dar conta de tantas ferramentas, os quatro administradores se revezam, inclusive durante a madrugada.

“Tenho sérios problemas com a minha mulher e filhos porque não saio do telefone. Mas não podemos parar. Acontecem problemas durante todo o dia e temos que tentar ajudar as pessoas”, argumenta Caamaño, que é morador do bairro do Grajaú, na Zona Norte do Rio.

Hoje, a rede OTT já se expandiu para outros municípios. O objetivo é ambicioso: formar a maior rede voluntária de segurança do Brasil. E o trabalho já envolve outros serviços, como a divulgação de fotos de desaparecidos, a denúncia de problemas com serviços públicos, tudo agrupado em uma página do Facebook.

O objetivo do quarteto é conseguir trabalhar em parceria com ferramentas de geolocalização como o Google e o Waze.  Eles acreditam que, assim, poderiam ser evitadas tragédias como as mortes do italiano Roberto Bardella, de 52 anos, e da argentina Natália Lorena Cappetti, de 42 anos.  Eles foram baleados, em diferentes situações, ao entrar por engano no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Isso não teria acontecido se os aplicativos que  usavam para indicar a rota estivessem ligados a um sistema de alarme sobre áreas de risco ou situações de conflito.

Por isso, mesmo sem a parceria, um aplicativo está sendo desenvolvido pela OTT e será lançado nos próximos meses, justamente identificando as áreas de riscos e de incidências de tiroteios e problemas de segurança.

O grupo garante que a iniciativa não tem motivação política, baseando-se apenas na segurança das pessoas. Por isso, qualquer tentativa de aproximação de políticos ou de pessoas interessadas em autopromoção é rechaçada. Parcerias, só com os colaboradores e com ferramentas que possam otimizar e monetizar o serviço, já que hoje o trabalho é totalmente voluntário. Em uma cidade onde a segurança e o respeito à vida é a cada dia menor, a OTT parece que veio para ficar e crescer, ocupando o espaço que deveria ser do poder público.

Escrito por Claudia Silva Jacobs

Claudia Silva Jacobs

Carioca, formada em Jornalismo pela PUC- RJ. Trabalhou no Jornal Dos Sports, na Última Hora e no Globo. Mudou-se para a Europa onde estudou Relacões Políticas e Internacionais no Ceris (Bruxelas) e Gerenciamento de Novas Mídias (Birkbeek College). Foi produtora do Serviço Brasileiro da BBC, em Londres, onde participou de diversas coberturas e ganhou o prêmio Ayrton Senna de reportagem de rádio com a série Trabalho Infantil no Brasil. Foi diretora de comunicação da Riotur por seis anos e agora é freelancer e editora do site CarnavaleSamba.Rio. Está em fase de conclusão do portal cidadaoautista.rio.

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2 Comentários

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  1. Parabéns, Cláudia Silva!!!!! Nós os cariocas e Brasileiros precisamos de jornalistas assim como você. Pessoas que ajudam e se preocupam com terceiros. Parabéns pela colaboração!

  2. PARABÉNS CLAUDIA POR SUA INICIATIVA. PRECISAMOS DE MUITOS COLABORADORES PARA AJUDAR A PM E ASSIM AJUDAMOS A NÓS MESMOS.

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