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Cadê a praia que estava aqui?

Mais de 300 bares e restaurantes plantados na orla atrapalham a vista da maior atração do Rio

Vem aí o maior de todos os quiosques, no Arpoador: mais um obstáculo à visão que o carioca já teve do mar. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
Vem aí o maior de todos os quiosques, no Arpoador: mais um obstáculo à visão que o carioca já teve do mar. Foto: Joaquim Ferreira dos Santos

Tirem esses quiosques do caminho que eu quero passar com a minha dor, com o meu amor, com a minha caminhada, com a atividade que for. Dizem que abriu um no calçadão da praia do Leblon, de quase 50 metros de largura. Seria um quiosque sofisticado, venderia ostras. Não fui, não vou, não quero. Eu preciso do que outrora tive –  uma calçada para andar sem obstáculos, sem tropeçar em cadeiras de plástico, sem respirar a fumaça nauseabunda que sai das cozinhas desses monstrengos e esconde o saudável hálito frio da maresia.

O Rio tem uma indústria tímida, um mercado financeiro de poucas ações. O tesouro aqui é a experiência cultural, o estilo de vida, a vibração histórica e o fato de isso tudo estar cercado de mar, floresta e uma cordilheira de contornos insuperáveis. Aí vem o homem, vêm os carimbos permissivos da prefeitura, e tapa tudo por dinheiro

Acima de tudo, me devolvam a felicidade de ver o mar, de estar tão próximo dele. Quero de volta a sensação antiga de que o milagre bíblico se tornara possível e caminhar sobre as águas, como São Pedro, era um dos patrimônios inalienáveis da humanidade carioca.

Não havia nada mais impressionante no Rio, uma cidade de estupefações a cada esquina, do que poder atravessá-la com um punhado do oceano na linha dos olhos. Ia-se da Zona Sul ao Centro numa linha de 20 quilômetros preenchida pelas águas do Atlântico ou da baía de Guanabara. Era um delírio visual e um dos motivos para o Rio ser o que é. Pois, lamento informar. Cadê o mar que estava aqui?

Primeiro fizeram o Aterro – e jogaram as águas da baía lá para longe, ao fundo de pistas de alta velocidade. Depois alargaram a Avenida Atlântica, em Copacabana – e lá se foi o oceano para mais longe ainda, algo a que se chega depois de atravessar uma extensa faixa de areia desértica. Agora chegou a vez do golpe definitivo na escalada de se antepor algum obstáculo entre o carioca e a observação de seu cenário mais espetacular. As praias de Ipanema e Leblon estão escondidas atrás de um pavoroso muro de plástico, vidro e metal, os tais quiosques onde se vende até ostras.

Quiosque no Leblon: um muro de mesas, cadeiras e ombrelones esconde a praia. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
Quiosque no Leblon: um muro de mesas, cadeiras e ombrelones esconde a praia. Foto: Joaquim Ferreira dos Santos

São 309 desses bares e restaurantes cravados no meio do caminho de quem anda pela orla carioca, 309 tapumes espetados num cenário que deveria ser deixado livre porque é a joia da cidade.

O Rio tem uma indústria tímida, um mercado financeiro de poucas ações e dólares. O tesouro aqui é a experiência cultural, o estilo de vida, a vibração histórica e o fato de isso tudo estar cercado de mar, floresta e uma cordilheira de contornos insuperáveis. Aí vem o homem, vêm os carimbos permissivos da prefeitura, e tapa tudo por dinheiro. As montanhas já estavam há tempos emparedadas atrás de edifícios e torres de gabaritos criminosos. Chegou a vez de tampar o outro lado do paraíso. Esconderam a praia.

Os quiosques antigos eram barracas imundas, pequenas, mas que infestavam uma área considerável ao redor com latas de lixo, cadeiras, mesas e toda a demais parafernália agregada a seus serviços ruins. Uma porcalhada. Conseguiam apenas sujar o cenário e desconstruir aquelas imagens lindas, dos fotógrafos antigos, no tempo em que a cidade tinha por hábito passear pela calçada de desenhos sinuosos da orla. De vez em quando, a cada 50 metros, aparecia um banco de cimento, e as pessoas sentavam para ver os outros que continuavam passando. Ao fundo, bem próximo, o barulho das ondas. Qualquer livro de auto-ajuda pode confirmar: felicidade não é muito mais que isso.

A nova geração de quiosques é uma fileira de estrovengas que vai do Leme ao Pontal. São dez vezes maiores que os antigos, e potencializam na mesma proporção o desastre que é a falta de compreensão carioca da ocupação do espaço público. O que era do cidadão, patrimônio público, passou para o privado, no caso um empresário de nome João Barreto, da concessionário Rio Orla. São quiosques gigantescos. Invadem ao mesmo tempo o calçadão, a areia e também o subsolo de tudo isso, onde misturam cozinha, área de estoque de mercadorias e banheiro. Privatizaram a praia, o metro quadrado mais valioso da cidade.

Antes havia a pedra de Drummond no meio do caminho, um percalço poético para se entender a vida. Agora é o horror municipal, o liberou geral e a confirmação do pensamento administrativo vitorioso – espaço público livre é desperdício.

“O que se ganha com um cidadão caminhando feliz por uma calçada desocupada?”, vocifera o administrador. “Ocupe-se tudo com o que rentável for e vamos arrecadar impostos.”

Esses restaurantes de shopping, com sua estética lamentável, ficarão (muitos ainda estão em obras) em primeiro plano na orla carioca, muralhas levantadas a cada 150 metros, entre Ipanema e Leblon. Atrás deles, visíveis apenas para quem consumir ostras, estarão as Cagarras, os novos biquínis, a Cynthia Howlett nadando do Posto 6 ao 9, os tatuís do passado, os castelinhos de areia e o cardume de surfistas deslizando no azul da cor do mar. Na frente do quiosque, a fatiota de espaço que sobrar.

A calçada da praia era a grande passarela de charme para se curtir o melhor que a civilização carioca à beira mar tinha plantado. Virou um muro lamentável, um corredor de quiosques suspeitos onde se espreme limão nos olhos das ostras e daqueles que querem exercer um direito básico da felicidade, o de caminhar ao léu. Uma cidade se organiza a partir das calçadas oferecidas aos seus cidadãos – o resto que vá se lixar nas ostras.

Escrito por Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista e autor de vários livros, entre eles "Feliz 1958 - O ano que não devia acabar" e as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Organizou a coletânea "As cem melhores crônicas brasileiras" e também publicou livros como cronista. Define-se principalmente como um repórter de Cidade. No #Colabora, Joaquim escreve sobre o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio.

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