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Virada no jogo do poder esportivo

Escândalo envolvendo Carlos Arthur Nuzman é só mais um capítulo de uma novela decadente e insustentável

O presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, ao lado de Michel Temer, recebe os medalhistas olímpicos. Foto Ricardo Botelho/AFP
O presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, ao lado de Michel Temer, recebe os medalhistas olímpicos. Foto Ricardo Botelho/AFP

Algumas coincidências cercam o mundo do esporte multimilionário – e parecem espreitar o colapso de seu modelo. O inventor do formato, o brasileiro João Havelange, passou décadas no poder até cair em desgraça e morrer durante o evento que iniciou os questionamentos ao conceito vigente há pelo menos um quarto de século. Os escândalos de corrupção em torno de dois discípulos do capo da Fifa – o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira e, mais recentemente, o eterno presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman – transformam-se em contundente símbolo da decadência.

No Rio, o Parque Olímpico jaz como depósito de entulho e objetos usados nas competições; a Vila dos Atletas transformou-se num mico, tragada pela crise que inviabiliza a venda dos apartamentos. O Comitê Organizador – do qual Nuzman foi o presidente – ainda toureia dívida de R$ 117 milhões, que deve cair no colo da prefeitura e do governo do estado

O desembarque do czar olímpico na Operação Lava Jato, ainda no status ameno de “passaportes apreendidos”, serve de cereja para o bolo de equívocos que domina o pós-Jogos de 2016. Nuzman está metido na denúncia que mancha a escolha do Rio como sede do megaevento – teria sido o intermediário da propina paga a um dos eleitores do Comitê Olímpico Internacional. A fonte do dinheiro (US$ 2 milhões) seria Arthur Cesar de Menezes Soares Filho, o “Rei Arthur”, ligado ao presidiário (e ex-governador) Sérgio Cabral.

Ainda que mais barulhenta, a bandalheira revelada na terça-feira (5) é apenas a ponta de um processo decrépito. Copas do Mundo e Olimpíadas andam fazendo água mundo afora, por produzirem desperdício, prejuízos e elefantes brancos nos seus passeios pela Terra. A cobiça por abrigar tais eventos encolhe velozmente, também devido à torrente de denúncias.

Manifestantes exigem a saída de Ricardo Teixeira durante a Copa do Mundo de 2014. Foto Paulo Vitor/AFP
Manifestantes exigem a saída de Ricardo Teixeira durante a Copa do Mundo de 2014. Foto Paulo Vitor/AFP

A viagem pelos ícones do abandono – à custa, quase sempre, de algumas montanhas de dinheiro público – tem como ponto de partida o Brasil da Copa de 2014. Aqui, a Fifa pode até alegar inocência – queria oito sedes, mas a grandiloquência inconsequente de Ricardo Teixeira (com o patrocínio empolgado do então presidente Lula) impôs 12, materializando barbaridades como a reforma do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, sorvedouro de R$ 1,8 bilhão.

Entre os campos da competição famosa pelo 7 a 1, há outros casos bizarros. Na Arena Pantanal, em Cuiabá, foram enterrados R$ 646 milhões, e em 2015, houve 48 jogos (três deles de clubes da primeira divisão) por lá, nos quais se faturou… zero. Fechou o ano com prejuízo de R$ 4,2 milhões. Em 2016 e 2017, problemas com laudos de manutenção obrigaram a partidas com portões fechados. O maior público pós-Mundial foi no confronto entre Luverdense e Corinthians, pela Copa do Brasil: 16 mil dos mais 41 mil lugares ocupados. Neste Sete de Setembro, a arena padrão Fifa abrigou o Desfile da Independência. No mais, abre para um ou outro jogo do brioso Cuiabá, integrante da Série C do Campeonato Brasileiro.

Os estádios das duas maiores cidades do país usados na Copa também enfrentam problemas. Endereço da final, o Maracanã está praticamente sem uso, metido num imbróglio da crise do governo do Rio com a Odebrecht, concessionária do estádio mítico, hoje desfigurado por uma reforma que engoliu R$ 1,2 bilhão e, segundo o Tribunal de Contas do Estado, foi superfaturada em R$ 211 milhões.

Na China, o Ninho do Pássar (ao fundo e o Cubo D’Água se transformaram numa enorme dor de cabeça. Foto Hao yun / Imaginechina
Na China, o Ninho do Pássaro (ao fundo) e o Cubo D’Água se transformaram numa enorme dor de cabeça. Foto Hao Yun / Imaginechina

Sede da abertura, o Itaquerão, arena do Corinthians, afunda numa dívida impagável, que alcança R$ 2 bilhões. O clube renegocia de tempos em tempos – atualmente paga R$ 3 milhões mensais –, mas um calote e a consequente devolução à Odebrecht (construtora do estádio, a pedido, mais uma vez, de Lula) não podem ser descartados.

Todos, aqui e nos outros países, obedientes ao “Padrão Fifa”, expresso em estádios faraônicos e, claro, caminho para a corrupção endêmica nas grandes obras. Os cadernos de encargos exigidos pelos donos de Copas e Olimpíadas são as bulas do descalabro.

O Rio pagou em dobro, por causa dos Jogos de 2016. O Parque Olímpico jaz como depósito de entulho e objetos usados nas competições; a Vila dos Atletas transformou-se num mico, tragada pela crise que inviabiliza a venda dos apartamentos. O Comitê Organizador – do qual Nuzman foi o presidente – ainda toureia dívida de R$ 117 milhões, que deve cair no colo da prefeitura e do governo do estado, como reza o contrato assinado entre o COI e as três esferas de poder, após a eleição agora maculada.

Todo este modelo de construções gigantes nasce da formulação de Havelange. Eleito presidente da Fifa em 1974, ele enxergou e turbinou a força política e econômica do esporte. As competições conjugam emoção e beleza, forjam heróis, testam os limites da espécie humana, sedimentam alegrias e tristezas, semeiam paixões. Assim, “lavam” tudo.

Para dar exemplo atual, haverá sequer um torcedor do Paris Saint-Germain preocupado com a procedência dos 222 bilhões de euros pagos ao Barcelona por Neymar? (O craque embolsa 30 milhões de euros por ano.) A fortuna veio de um fundo controlado pelo governo do Catar, também dono do clube francês – e, desde que o brasileiro faça suas diabruras em campo, tudo certo.

A visão de Havelange agigantou a Copa do Mundo e as Olimpíadas (ele também era conselheiro influente do COI). A competição poliesportiva teve seu ponto de virada em Barcelona/1992, quando consolidou-se a ideia de legado – promessa central para os Jogos do Rio, que desmanchou-se em desalento.

Antigo maior do mundo, o Maracanã sofre com os problemas de gestão e o superfaturamento. Foto Frédéric SOREAU / Photononstop
Antigo maior do mundo, o Maracanã sofre com os problemas de gestão e o superfaturamento. Foto Frédéric SOREAU / Photononstop

A terra carioca não está sozinha na ressaca pós-evento. Nos últimos anos, multiplicam-se os casos de desperdício mundo afora, nas sedes dos eventos esportivos. A aventura da Fifa nas savanas d’África deixou diversos elefantes brancos erguidos para a Copa de 2010. O mais reluzente deles, o Green Point, fica na Cidade do Cabo, custou o equivalente a R$ 1 bilhão e sangra num prejuízo de R$ 10 milhões mensais só em manutenção.

Dois emblemas dos Jogos de Pequim-2008 servem de contribuição asiática à viagem do desperdício esportivo. O Estádio Olímpico, famoso como Ninho do Pássaro, e o Cubo D’Água, o centro aquático, viraram estorvos para a prefeitura da capital chinesa. Construídos a um preço de, respectivamente, US$ 430 milhões e US$ 530 milhões, jazem praticamente sem uso.

Conservar o Ninho do Pássaro sai por US$ 21,9 milhões anuais, segundo a agência estatal de notícias Xinhua. A arena de 80 mil lugares não pode ser usada para shows – grandes concentrações humanas são praticamente proibidas na China – e é um despropósito para o Beijing Guo’An, que disputa o campeonato de futebol local (com o meia brasileiro Renato Augusto, titular da seleção de Tite, como estrela). O time manda suas partidas no Estádio dos Trabalhadores, com capacidade para 60 mil pessoas e teve como média de público, em 2016, pouco menos da metade disso – 38.114 espectadores.

A escolha do Rio como endereço olímpico marca o ocaso da cobiça de cidades e países por abrigar os megaeventos. A vitória sobre Chicago e Madri, trazendo os Jogos à América do Sul pela primeira vez, tem a sombra da corrupção para ratificar o que os jornalistas britânicos Vyv Simson e Andrew Jennings denunciaram no clássico livro “Os senhores dos anéis – Poder, dinheiro e drogas nas Olimpíadas modernas” (Editora Best-Seller, 1992). Eles passeiam pelos muitos episódios suspeitos envolvendo cartolas olímpicos.

O escocês Jennings fez o mesmo com o futebol em “Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa” (Panda Books, 2011), desnudando esquemas fraudulentos nos pagamentos dos valiosos direitos de transmissão dos eventos pela TV. “As coisas que descobri são tão estarrecedoras que até eu mesmo fiquei chocado”, escreveu o jornalista, que teve sua credencial negada pela Fifa para cobrir Copas do Mundo.

Mas a casa está caindo – e bem antes de Nuzman, arrastou poderosos do futebol, quando, em 2015, o FBI saiu prendendo mundo afora, num escândalo nunca visto no esporte. Lavagem de dinheiro, corrupção, extorsão e fraude eletrônica estão entre os crimes apurados pela polícia americana, praticados por cartolas como o então presidente da CBF, José Maria Marín, até hoje em prisão domiciliar, em Nova York. Seu sucessor no posto, Marco Polo del Nero, não bota o pé fora do Brasil desde então, com medo de ser engaiolado.

As prisões e as denúncias em torno de um setor que tem alergia a transparência e democracia acabaram por desvalorizá-lo. A ponto de praticamente não haver candidatos a abrigar as Olimpíadas seguintes aos Jogos de Tóquio-2020. Apenas Paris e Los Angeles botaram a cara e levaram automaticamente. O COI até deixou que as cidades decidissem entre si as datas de preferência – a capital francesa ficou com 2024 e os californianos com 2028.

Jamais por acaso, as duas entidades gostam de se denominar “famílias” – “Família Fifa” e “Família Olímpica”. “Nunca deixe que ninguém de fora da família saiba o que você está pensando”, ensina Dom Corleone, na magistral interpretação de Marlon Brando em “O poderoso chefão”. O filme real dos manda-chuvas esportivos parece ter chegado ao epílogo.

Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Foi comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”.

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