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Um passeio pelo Museu do Ontem

Visto do alto do Morro da Conceição, o Rio nem parece ter tantos problemas

No Morro da Conceição, a vida segue com a sua rotina mais invejável, a do sossego e a do desacontecimento. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
No Morro da Conceição, a vida segue com a sua rotina mais invejável, a do sossego e a do desacontecimento. Foto Joaquim Ferreira dos Santos

Quando quero me esconder do Rio de Janeiro, eu me esgueiro ali por detrás do prédio da Rádio Nacional e assim como quem não quer nada, na maciota, no sapatinho, eu subo a dúzia de degraus que sai da Travessa do Liceu e vai dar no Morro da Conceição. Não se perca de mim, fique de olhos neste GPS de letrinhas: ao chegar na esquina de Rua do Acre com Rio Branco, de onde sai a Travessa do Liceu, há quem prefira seguir em frente, se aventurar pelo Boulevard Olímpico. Já foi boa opção para quem queria, como é do princípio-motor desta coluna, a liberdade de bater perna por aí. Cuidado. Atenção. Não mais.

O pedestre aqui é cidadão de segunda classe. Enfrenta uma cidade sempre pronta a encher qualquer metro quadrado, nas calçadas e praças, com uma barraca de feira, um food truck gurmetizado, um artesão de araque ou um vendedor de fidget spinner

Meses atrás o boulevard era uma passarela larga, feita para a suprema maravilha do lazer gratuito, o velho footing de todos andarem de um lado para o outro e constatarem, ou com um risinho de mofa ou com um olhar de apreço, como andava a humanidade carioca. O boulevard estreitou. Foi tomado pelo mesmo mafuá que campeia no resto do Rio, uma cidade na contramão dos bons princípios da qualidade de vida de suas colegas internacionais, todas pedindo espaços organizadamente vazios para o nirvana fundamental ao ser humano que é o caminhar em frente. O pedestre aqui é cidadão de segunda classe. Enfrenta uma cidade sempre pronta a encher qualquer metro quadrado, nas calçadas e praças, com uma barraca de feira, um food truck gurmetizado, um artesão de araque ou um vendedor de fidget spinner. Dizem que é a crise. É a falta de noção de que não se põe uma crise na frente da outra.

Os degraus que vão dar na Ladeira João Homem. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
Os degraus que vão dar na Ladeira João Homem. Foto Joaquim Ferreira dos Santos

Por isso, quando eu quero me esconder do Rio de Janeiro e passear de novo na cidade que ela já foi, eu pego a Travessa do Liceu e subo os tais degraus que vão dar na Ladeira João Homem, o início do Morro da Conceição. Quem, na esquina de Acre com Rio Branco, optar por seguir para o engarrafado Boulevard Olímpico vai esbarrar antes nas filas do Museu do Amanhã. Apesar da proximidade, da coincidência de estarem na mesma parada do VLT, o Morro da Conceição não tem nada a ver com essa balbúrdia. O morro é o avesso do Museu do Amanhã – ele é o Museu do Ontem.

O Morro da Conceição é um sobrevivente. Teve melhor sorte que seus companheiros do Centro, os morros do Castelo e de Santo Antonio, todos desmontados um século atrás a pretexto de circulação de ar, de aterro de mares, de lagoas e de ideias lamentavelmente afins. Um prefeito atrás do outro, coerentes entre si, derrubam em seus mandatos o que o anterior esqueceu em pé – e assim vão desenhando, de olho apenas na taxa de oxigênio das empreiteiras, uma cidade que ninguém quer. Nesse interminável botabaixo de prédios e de costumes, esqueceram o Morro da Conceição, e é por isso, antes que decidam fazer o mesmo com ele, que de vez em quando eu traço por ali, por suas ladeiras, becos e travessas, o meu plano mais rotineiro de fuga. Longe daqui, aqui mesmo. Ao mesmo tempo que fujo do Rio, reencontro-o como gostaria que ainda fosse na tranquilidade da Rua do Jogo da Bola. Subo para fora do estresse das multidões lá embaixo, reencontro a infância nas crianças rolando em carrinhos de rolimã.

O casario foi gurmetizado em alguns pontos, ocupado por ateliês de artistas plásticos, mas o resultado é bom. A Ladeira João Homem, onde está a Casa Rosa, é uma das ruas mais bonitas da cidade. Lembra alguma vila suburbana do tempo de Lima Barreto. A segurança do bairro, pelo menos até o encerramento desta edição, parecia garantida pela presença no cocuruto do morro do quartel da Quinta Divisão de Levantamento do Exército. Zero de bala perdida. Por todos os cantos a deliciosa sensação de que não está acontecendo nada. Ninguém está vendo, não há o que registrar. A vida segue com a sua rotina mais invejável, a do sossego e a do desacontecimento. O homem feliz não tem notícias a dar, tudo que lhe ocorre faz parte há décadas de sua normalidade cotidiana, dizia Rubem Braga – que fugia do Rio abrigando-se em sua cobertura de Ipanema.

A tranquilidade da Rua Jogo da Bola. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
A tranquilidade da Rua Jogo da Bola. Foto Joaquim Ferreira dos Santos

O Morro da Conceição é assim. O avesso do avesso das manchetes. As calçadas prosseguem desocupadas de qualquer comércio ambulatório, pelo simples e doméstico caso de servirem de passagem apenas a seus moradores, uma população um pouco além de um milhar de almas. Pode parecer pouca atração, a santa paz de um dia após o outro, o trivial elementar a qualquer cidade civilizada. No Rio, um cenário assim é um luxo só.

Por tudo isso é que, quando o sufoco se faz mais insuportável e é preciso pegar ar fresco, eu subo ao morro que restou. Gosto de perambular pelo beco do Escorrega e caminhar como se fosse o homem invisível, como se estivesse ao abrigo das flechas na caverna do Fantasma, cercado apenas das minhas alucinações mais benignas. Não há mapa de atrações a ser perseguido. Bate-se perna sem o atropelo das multidões. Uma opção é pegar a rua São Francisco da Prainha, dobrar a esquerda na Argemiro Bulcão e dar de cara com absolutamente ninguém – os paparazzi morreriam sem disparar um flash aqui – quando chegar à direita, no Largo João da Baiana. Neste ponto da caminhada fica a Pedra do Sal. No século 19 os escravos cantavam no intervalo dos trabalhos, depois João da Baiana fundou grupos de rancho no início do século 20 e hoje uma roda de samba luta para não ser cassada pela burocracia evangélica do prefeito.

Eu poderia ficar andando muitas linhas ainda pelo Morro da Conceição, e tem dias – vai entender o sussurro dos fantasmas peripatéticos no seu ouvido! – que depois da Ladeira João Homem os passos embalam sozinhos na direção da Rua do Jogo da Bola, passam pela igreja de Nossa Senhora da Conceição, de 1895, e caem à esquerda na Travessa Joaquim Soares. Dali, dos jardins do Observatório do Valongo, um mirante que se debruça sobre a Rua Camerino, eu costumo lançar uma lágrima de saudade ao restaurante 28, logo abaixo na Barão de São Felix. Tinha o melhor cabrito da cidade, mas jaz em paz, fechado há quatro anos pela síndrome da correção gastronômica. Outros dias, no entanto, é possível caminhar para a saída do Largo da Prainha, pegar a rua Mato Grosso, a Travessa do Sereno e chegar ao endereço da fartura parruda de uma das fundações gastronômicas da cidade, o ainda aberto restaurante do Angu do Gomes.

O que me interessa no Morro da Conceição, no entanto, não é um roteiro gastronômico ou a observação de que ficaram bonitas, no Jardim do Valongo, as estátuas de Minerva, Marte, Ceres e Mercúrio, que antes estavam no Cais da Imperatriz, logo à direita de quem desce pela Camerino, e recentemente tornado patrimônio da humanidade. O patrimônio maior do Morro da Conceição é a sensação de sossego, e eu escrevo isso com o temor carioca de ser desmentido pelo jornal de amanhã. Por enquanto, não há ocorrências a se registrar neste boletim. O luxo aqui é a calma, a ausência de multidões, a aparente possibilidade de se caminhar despreocupado até a praça Leopoldo Martins, sentar num banco e ficar olhando lá embaixo os navios cada vez mais raros que chegam no porto de um Rio violento e falido.

Vista assim do alto, a cidade nem dói.

Por todos os cantos a deliciosa sensação de que não está acontecendo nada. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
Por todos os cantos a deliciosa sensação de que não está acontecendo nada. Foto Joaquim Ferreira dos Santos

Escrito por Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista e autor de vários livros, entre eles "Feliz 1958 - O ano que não devia acabar" e as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Organizou a coletânea "As cem melhores crônicas brasileiras" e também publicou livros como cronista. Define-se principalmente como um repórter de Cidade. No #Colabora, Joaquim escreve sobre o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio.

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Um Comentário

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  1. Como Joaquim, também sou jornalista, e apaixonada por um Rio que guardo na memória. Parabéns ao colega pelo belo texto e por evocar em mim lembranças desse pedacinho do centro da cidade que, teima em continuar com esse jeitinho interiorano. Oxalá preserve suas características!

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