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Os paulistas estão chegando

Depois de acompanhar bandeirantes e guerrilheiros, apelido agora define os novos traficantes do Rio

Traficantes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) durante uma rebelião no presídio de Sorocaba. Foto Marie Hippenmeyer/AFP
Traficantes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), durante uma rebelião no presídio de Sorocaba. Foto: Marie Hippenmeyer/AFP

O novo recreio dos bandeirantes carioca fica a uns 20 quilômetros a leste do bairro litorâneo, mais exatamente na Favela da Rocinha, plantada em São Conrado, Zona Sul do Rio. É lá que, segundo reportagem de Rogério Pagnan, publicada na ‘Folha de S.Paulo’, o PCC (Primeiro Comando da Capital)  abriu sua primeira representação carioca. Foi para este importante entreposto do mercado de drogas ilícitas que a organização criminosa nascida em São Paulo enviou seus embaixadores, seus executivos – os “paulistas”, como eles passaram a ser conhecidos.

Eles (o PCC) atuam de maneira organizada, são muito bem antenados, vão partir para a compra de instituições, partidos, políticos, ONGs, tudo será tragado, como já ocorreu na Colômbia e no México

Francisco Carlos Teixeira da Silva
Historiador

A designação, que remete ao gentílico de quem nasce no estado, não chega a ser original.  O mesmo apelido foi grudado, em diferentes momentos da nossa história, em homens e mulheres envolvidos em missões de conquista em outros pedaços do nosso território. Foi o que ocorreu com os bandeirantes do Brasil Colônia e com integrantes do então clandestino PC do B que, entre os anos 1960 e 1970, tentaram estruturar um foco guerrilheiro na região do Araguaia.

“Ficou a ideia de que o ‘paulista’ é aquele que vem de fora, quem vem para o mato, aquele que tem sotaque diferente, uma outra cor de pele. Isto, como consequência de fatores históricos, de uma identidade cultural ligada à conquista. Além disso, há a ideia de que o carioca não sai de sua cidade e estado para outro lugar”, comenta o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva. Carioca, ele já foi chamado de “paulista” quando viajou pelo interior do Nordeste quando colhia dados para uma tese sobre o rio São Francisco.

Ele observa que a identificação do paulista com a figura do conquistador não é incomum e foi estimulada pelo culto aos bandeirantes iniciado, na primeira década do século 20, com a publicação de ‘Capítulos da história colonial’, de Capistrano de Abreu. No livro, o historiador trata do desbravamento do interior e ressalta o papel dos bandeirantes-paulistas. Segundo Teixeira da Silva, esta visão contaminou boa parte da historiografia nacional.

Cartaz com as fotos dos guerrilheiros desaparecidos no Araguaia. Foto Vanderlei Almeida/AFP
Cartaz com fotos dos guerrilheiros desaparecidos no Araguaia. Foto:  Vanderlei Almeida/AFP

O fenômeno, afirma, ganhou ainda mais força a partir da década de 1930, quando Getúlio Vargas passou a estimular a ocupação do Centro-Oeste. Em 1928, o poeta Cassiano Ricardo lançara ‘Martim Cererê:  O Brasil dos meninos, poetas e heróis’, que exaltava o bandeirante como símbolo da nacionalidade – o poema ganharia ampla divulgação pela imprensa do Estado Novo. Cadernos escolares passaram a ter, nas capas, figuras daqueles homens que ampliaram o território brasileiro. Na época, não havia qualquer crítica à escravização e extermínio de índios, à opressão aos jesuítas – os bandeirantes eram vistos como heróis.

A lógica de ocupação de territórios virou tema de marchinhas, de escolas de samba. “A Rússia, os Estados Unidos e o Brasil foram os únicos três grandes países que partiram para ocupar territórios dentro de suas fronteiras, ainda que de uma forma tão genocida quanto aqueles que invadiram outros países na expansão colonial”, diz Teixeira da Silva. O historiador ressalta que, durante a ditadura implantada em 1964, a obra de Cassiano Ricardo seria reeditada – em troca, o poeta elogiou os governos militares e obras como a Transamazônica, outro símbolo do alargamento de fronteiras dentro do território brasileiro.

Séculos depois das entradas e bandeiras, o PC do B enviou cerca de 80 militantes para o Centro-Oeste, onde criariam as bases de uma revolução socialista. A classificação de “paulista” foi a encontrada pelos moradores daquela região isolada – a expansão das redes de emissoras de TV ainda engatinhava –  para classificar aqueles homens e mulheres que falavam de outro jeito, que usavam roupas e palavras não usuais, que traziam novas técnicas.

O foco guerrilheiro seria combatido pelo Exército entre 1972 e 1974, numa das etapas mais sangrentas da guerra suja brasileira.  Os guerrilheiros foram presos, torturados, mortos, desaparecidos – e a aventura dos então novos “paulistas” terminou sem a conquista de qualquer território. Mais: moradores locais que haviam tido contato com aquelas pessoas de fora também acabaram vítimas da mão pesada da repressão – a presença dos “paulistas” deixou memórias dolorosas naquele pedaço de selva.

Capa do livro de Cassiano Ricardo. Reprodução
Capa do livro de Cassiano Ricardo. Reprodução

Já na década seguinte, os lucros gerados pela venda da cocaína ajudaram a consolidar a disputa pelo domínio do território de favelas cariocas onde esse tipo de comércio pudesse ser praticado de maneira aberta. Cada ribanceira viraria uma nação. Teixeira da Silva ressalta que a geografia do Rio – cidade pontuada por morros – e a existência do que chama de redes de sociabilidades sobrepostas favoreceram a descentralização desse tipo de atividade criminosa. “O Rio manteve suas tradições locais, suas redes pré-capitalistas”, ressalta.  Como resultado, foram criados comandos descentralizados, de hierarquia pouco rígida, algo que contrasta com a lógica do PCC, um comando que, além de primeiro, apresenta-se como único, um monopólio de inspiração capitalista nascido no principal estado da federação.

A chegada da nova leva de paulistas-conquistadores ao Rio, preocupa o historiador. Ele frisa que, ao contrário das organizações que disputam poder no Rio, o PCC atua de forma mais organizada e hierárquica. Não busca a conquista de territórios, mas a ampliação e fortalecimento de suas redes. Um emaranhado que, a exemplo de organizações terroristas contemporâneas, funciona a partir de estruturas que envolvem pontos de abastecimento e de distribuição de armas e drogas.

Segundo a reportagem da ‘Folha’, o PCC estabeleceu uma aliança com integrantes da ADA (Amigos dos Amigos), facção que domina o comércio de drogas na Rocinha. Teixeira da Silva ressalta que este acordo foi comunicado em outubro ao Ministério da Justiça como mais um exemplo da expansão dos negócios do grupo originado em São Paulo. Ele afirma que nada foi feito. “O então ministro Alexandre Cardoso falou em Plano Nacional de Segurança, uma baboseira que nunca foi implantada. O atual (Osmar Serraglio) permanece no cargo por conta de imunidade”, diz.

O historiador prevê um agravamento na guerra pelo domínio do tráfico, das rotas de importação e exportação de cocaína. “Eles (o PCC) atuam de maneira organizada, são muito bem antenados, vão partir para a compra de instituições, partidos, políticos, ONGs, tudo será tragado, como já ocorreu na Colômbia e no México”, prevê. Ele acredita também que o poder da organização irá sepultar as tais sociabilidades que tanto influenciaram na estruturação do comércio de drogas no Rio.

Ao contrário de antecessores históricos, os novos paulistas não buscam territórios ou mão de obra. Capitalistas dispostos a conquistar mercados e a maximizar lucros, eles tratam de ampliar e azeitar redes cada mais abrangentes e sólidas. “Estamos na beira de um precipício”, resume Teixeira da Silva.

Escrito por Fernando Molica

Fernando Molica

É carioca, jornalista e escritor. Trabalhou na 'Folha de S.Paulo', 'O Estado de S.Paulo', 'O Globo', TV Globo e 'O Dia'; coordenou o MBA em Jornalismo Investigativo e Realidade Brasileira da Fundação Getúlio Vargas. É ganhador de dois prêmios Vladimir Herzog e integrou a equipe vencedora do Prêmio Embratel de 2015. Lançou, este ano, o romance 'Uma selfie com Lenin'.

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