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Sem medo do parto natural

A coragem da escolha, a dor e o prazer da jornada e a emoção da conquista

A sorridente Maria Flor, naturalmente feliz. Foto de Marcela Poli
A sorridente Maria Flor, naturalmente feliz. Foto de Marcela Poli

Hoje minha terceira filha completa vinte e um dias. Maria Flor.

Os outros dois haviam nascido de parto normal e eu queria que esse parto – se possível – também fosse normal, mas com algumas mudanças – se possível fosse. Tudo assim. Tudo na base do se possível fosse. Impor alguma coisa à natureza está fora dos meus planos já não é de hoje.

Minhas amigas, é possível. Todas podemos. A escolha é nossa. Tem que ser nossa. Que possamos estar atentas e nos permitir fazer nossas escolhas sem aderir à onda do medo e da resistência ao parto normal por pura falta de informação. Se você quer optar pela cesárea ou pelo parto induzido vá em frente, mas permita-se antes verificar se essa escolha é realmente sua.

E justamente por querer que minha vida estivesse o mais alinhada possível com a natureza e com procedimentos naturais tanto para cuidar de mim, dos meus filhos, da nossa comida e da nossa casa que eu não conseguia entender por que dois partos normais de mulher saudável e bebês idem haviam sido induzidos, criando assim a necessidade de anestesiar a parturiente a ponto dela – no caso, eu – não sentir absolutamente NADA da cintura pra baixo. Como fazer força numa situação dessas? Olha, bem complicado… Mas você acaba conseguindo na raça, afinal, tudo o que quer é ter seus filho nos braços.

Pari assim em 2006 e 2011. Foram partos ótimos. As crianças nasceram saudáveis, graças a Deus, e ao excelente médico que nos assistiu. Só tenho a agradecer.
Mas… Não é de hoje – isso vem lá da infância – eu queria entender.
Por que induzir? Para quê? Para que aplicar aquele líquido do capeta na veia e acelerar todo o processo e não permitir que corpo se acostume com a dor aos poucos, fazendo amizade com ela e – por que não – transformando-a em outra sensação?

Eu acreditava piamente nessa possibilidade. Acreditava que se me dessem tempo, talvez, talvez, minha filha pudesse vir ao mundo naturalmente, sem sofrimento para ninguém.

Mudei de médico. Coisas que o Universo manda para nós. Uma menina na yoga me ouviu falando sobre essas dúvidas todas e me disse: “é possível isso que você quer, basta ter ao seu lado um médico que possa te esperar a ter seu neném no seu tempo (e no dela, claro)”. E ela me indicou o Chico (Dr. Francisco Vargas de Oliveira Villela). Não tive dúvidas. Liguei, marquei o médico novo e me despedi do antigo. Com todo amor. Eu precisava ter um outro tipo de experiência.

Das outras duas vezes foi assim: cheguei no consultório para exame de rotina e o médico avisou: 5 de dilatação, nasce com 10. Vamos para o hospital. Chegando lá – sem sentir absolutamente nada – eu era deitada numa cama (o que me parecia inadequado, uma vez que o propósito era colocar uma criança de mais de três quilos e meio para fora e o mais lógico talvez fosse jogar a favor da gravidade) e me colocavam uma coisa na veia – o que na época eu não fazia ideia do que se tratava. Ocitocina.

Esse hormônio é produzido naturalmente pelo cérebro da mulher para promover as contrações uterinas e a produção de leite. Se estivermos em companhia de outras mulheres grávidas, temos o poder de produzir mais. Algumas mulheres têm muita facilidade de produzir ocitocina.

Taí um assunto mágico sobre o qual ainda vou pesquisar mais e escrever sobre. Nos meus dois primeiros partos, o médico achou que a ocitocina deveria ser injetada também e aplicou sem me explicar para o que servia nem se eu concordava com o procedimento. Ocitocina vindo pela veia provoca uma dor do capeta. Não é
brincadeira. Em seguida, a opção mais adequada é uma anestesia para dar conta do recado. O problema é conseguir fazer força sem sentir nada do seu corpo da cintura pra baixo. Desumano.

O barrigão na praia. Impor alguma coisa á natureza estava fora dos planos. Foto de Marcela Poli
O barrigão na praia. Impor alguma coisa á natureza estava fora dos planos. Foto de Marcela Poli

Dia 30 de janeiro de 2017 foi diferente. Cada parto é um parto. As contrações começaram de madrugada e de manhã já estavam me incomodando bastante. Fui ao consultório e estava com apenas três de dilatação. Maria Flor provavelmente nasceria naquele dia, mas não sabíamos a hora nem como. Apenas que tentaríamos juntos: eu, Maria Flor, o médico, meu marido e a maravilhosa doula que cuidou de mim, Malim Malin Valpassos. A ideia era colocar Maria no mundo com o mínimo de intervenções e sem pressa.

Fiquei um pouco na banheira de casa fazendo exercícios com Malim e tentando entrar num acordo com a dor. É tipo aquele colega novo que diz que não vai com a sua cara e que só quer implicar, mas depois de um tempo e muita troca vira seu melhor amigo e te defende dos perigos na escola.

Uma da tarde saímos para o hospital. Lá fiquei num quarto que chamam de quarto humanizado. Curioso. Não deveriam ser todos os quartos “humanizados”?
Fui direto para a banheira de água quente com hidromassagem. Excelente para aliviar a pressão das contrações. Complicado achar posição, mas agente mexe pra lá e pra cá – quando dá, quando a contração permite – e encontra um lugar que seu corpo considera seguro para parar e parir.

O que os médicos haviam me dito durante anos era que algumas mulheres, poucas, apenas 14 por cento da população feminina, conseguiam parir cuspindo, sem sentir dor. Não conheço a estatística e respeito a informação, mas hoje posso afirmar: é possível chegar aos 10 de dilatação sem o uso de ocitocina na veia.

O médico me pediu para sair um pouco da água e ir para a cama apenas para ouvir os batimentos da neném. Graças a Deus estava ótima. Significava que estávamos no caminho certo. Mais paciência. Mais espera. Mais negociação com a dor. Surpresa. Ele olha para mim e diz: já está com 9 de dilatação. Um sorriso se abre nos seus lábios. Ele olha pra doula: “essa é das boas, nove de dilatação e está assim, não xingou ninguém!”.

A simples informação “nove de dilatação” foi das coisas mais emocionantes que ouvi na minha vida. Sem falar nada, só deixei o ar sair dos meus pulmões e aliviada consegui chorar. Um choro que eu acho que prendia há anos. Eu tinha dúvida se era possível chegar aos 10 de dilatação sem intervenção da medicina, sem drogas, sem perder a consciência do meu corpo.

O que os médicos haviam me dito durante anos era que algumas mulheres, poucas, apenas 14 por cento da população feminina, conseguiam parir cuspindo, sem sentir dor. Não conheço a estatística e respeito a informação, mas hoje posso afirmar: é possível chegar aos 10 de dilatação sem o uso de ocitocina na veia. É possível. Eu pensava sobre essa possibilidade e meu peito se enchia de gratidão. Eu chorava o choro do prazer.

Faltava parir. Voltamos para a banheira. A dor aumentou. A negociação com ela idem. Fui sentindo meu corpo se adaptar e não resisti a nada. Entreguei, confiei, aceitei e agradeci. Agradeci mesmo para valer cada segundo daquela oportunidade.

Eu não sabia onde deveria fazer a força. Tinha a falsa impressão de que meu abdômen seria o único responsável por empurrar minha filha para o mundo. Mas o médico me mostrou, me cutucando lá embaixo, onde eu deveria concentrar minhas forças. Eu tinha que literalmente abrir a vagina em flor o máximo possível e continuamente (o que era mais difícil). E entre os meus ossos da bacia vindo rente que nem pão quente já vinha empurrando tudo uma garotinha que não parecia ter a menor dúvida de onde queria chegar. Maria Flor queria nascer. Ela queria sair mesmo. E só dependia de mim.

Eu fiz a força. Mas não deu para ser tão longa como me diziam que deveria ser. Amarelei. Pedi ajuda, estava com medo de não conseguir e atrapalhar minha filha que parecia tão valente. Confessei: “Tenho medo de não conseguir fazer a força. Ajudem minha filha; nos outros partos me disseram que eu estava fazendo força no lugar errado”. E foi aí que o Chico me olhou sério e me deu a melhor bronca da minha vida. “Quem vai ajudar sua filha vai ser você mesma. Você consegue sim, Marcela.
Eu estou vendo. Eu vi que você sabe onde é a força. Das outras vezes fizeram para você; por isso que você não sabia. Agora você já aprendeu”. Foi o suficiente. Peguei um ar e fui embora para minha força contínua e ininterrupta até que eu visse minha filha do lado de fora.

Todos começaram a falar: “olha, quanto cabelo, ela é cabeluda!”. Meu Deus, eles já estavam vendo os cabelos dela! Não tinha mais como parar  aquela força em nenhuma hipótese. Fiz muita. Nem sei quanta. Até que senti, literalmente, que algo estava se rasgando (rasgou um pouco mesmo, tomei três pontos) e ploft, a cabeça saiu. O médico interveio pela primeira vez (quer dizer, segunda, a primeira foi na bronca). Puxou a cabeça da minha filha e saiu o corpinho junto. Muito valente Maria.

Flor foi colocada no meu colo ainda na banheira e esperamos juntos o cordão parar de funcionar. Somente após parar é que foi cortado (esse procedimento faz com que o bebê comece a usar a nova respiração devagar, sem susto). Coloquei a bichinha no peito e ainda peladinha ela conseguiu mamar o colostro que – empurrado pela ocitocina natural – já saía para alimentá-la.

Foi a coisa mais linda que eu vivi. Quando acabou, eu só conseguia falar, “Meu Deus”, “Meu Deus”. “Gustavo (meu marido), olha só!”. “Meu Deus, obrigada”.

É possível. É possível. É o que eu gostaria de falar para todas as mulheres que desejam ser mães e estejam lendo esta história. Minhas amigas, é possível. Todas podemos. A escolha é nossa. Tem que ser nossa. Que possamos estar atentas e nos permitir fazer nossas escolhas sem aderir à onda do medo e da resistência ao parto normal por pura falta de informação. Se você quer optar pela cesárea ou pelo parto induzido vá em frente, mas permita-se antes verificar se essa escolha é realmente sua.

Que a humanidade trate melhor suas mulheres. Esse é o meu desejo.

Gratidão eterna às amigas Glaucia Cantergiani, Simone Brito, Amanda Pinheiro, Mônica Ferreira e Renata Dias Gomes. Todas me incentivaram a acreditar que era possível. E à minha mãe, que me colocou no mundo (na raça).

Escrito por Marcela Poli

Marcela Poli

Marcela Petraglia é jornalista. Casada há onze anos decidiu há pouco usar o nome do marido, Poli, para marcar uma nova fase de sua vida. Mãe de João, 10 anos, Júlia, cinco, e agora Maria Flor, recém nascida, Macela se dedica há dois anos à sua empresa de preparação artística e produtora de conteúdo audiovisual, a UNO Criativo. O que não muda nunca: sua paixão pela escrita e pela maternidade.

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