Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Navios de cruzeiro são ameaça ao meio ambiente

Vai fazer uma viagem em um transatlântico? Pode não ser uma boa ideia

Navio Harmony. Foto de Divulgacao
O navio Harmony é uma cidade flutuante, com 23 piscinas, 20 restaurantes e 52 árvores. Foto de Divulgação

Em um domingo de maio deste ano, zarpava sob grande fanfarra do porto inglês de Southampton o maior navio de cruzeiro do mundo. O Harmony, da Royal Caribbean, é um gigante que comporta 6.780 passageiros e uma tripulação de 2.100 pessoas. Uma cidade flutuante.

O público ficou impressionado com seus 16 decks, 23 piscinas, 20 restaurantes e, ironicamente, 52 árvores.

Nem todo mundo comemorou. Com seus dois motores Wärtsilä de 16 cilindros e quatro andares de altura, o navio queima 5 mil litros de combustível por hora e ainda usa diesel, considerado o óleo mais poluente do mundo.

Ameaça em alto-mar

Os habitantes de Southampton se queixam da poluição do ar, mas a Royal Caribbean diz trabalhar com as tecnologias mais avançadas para danificar menos o ambiente – fato é que os navios de turismo, junto com os de carga, são uma ameaça concreta.

Estes barcos consomem tanto combustível quanto cidades inteiras. E usam muito mais potência que um cargueiro

Bill Hemmings
especialista marinho do Transport and Environmental Group

Especialistas calculam que um navio de tal envergadura emite mais enxofre do que milhões de automóveis, mais óxido nitroso que todo o trânsito de uma cidade de porte médio ou mais matéria particulada do que milhares de ônibus.

Bill Hemmings, especialista marinho do Transport and Environmental Group, baseado em Bruxelas, diz que “estes barcos consomem tanto combustível quanto cidades inteiras. E usam muito mais potência que um cargueiro”. A poluição da navegação internacional responde por cerca de 50 mil mortes prematuras apenas na Europa, diz a organização em seu website.

A Cruise Lines International Association afirma que o setor de cruzeiros passa por um dos mais rápidos crescimentos do mercado de turismo de massa, com 24 milhões de passageiros, em comparação com 16 milhões em 2006 e apenas 1,4 milhão em 1980.

Custo socioambiental

Navio Harmony. Foto de Divulgação
Navio Harmony. Foto de Divulgação

O setor gerou uma receita de U$ 83 bilhões em 2015, com cerca de um milhão de empregos em tempo integral. Mas seu custo para sociedade, traduzido em danos para a Terra, é de U$ 80 bilhões por ano.

Existe um problema sério de regulamentação. As normas para a poluição em terra são bastante mais rígidas. Na maioria dos países, o máximo de emissões de enxofre permitidas é de 10 partes por milhão, ou 0.001 por cento. Mas, graças ao lobby da Organização Marítima Internacional, a indústria de cruzeiro tem o leniente limite de 3,5%, o que permite que seus navios usem diesel barato e sujo. A organização promete baixar isto para 0,5% até 2020.

Recentemente, a Royal Caribbean anunciou uma nova classe de navios que serão movidos a gás natural e irão empregar tecnologia de células de energia, o que, segundo a empresa, irá melhorar a relação da indústria com o ambiente. Dois deles serão lançados, em 2022 e 2024.

Não só os navios poluem e ameaçam a natureza. Estão começando a navegar por onde não deveriam estar, em primeiro lugar. Desde o século 16, expedições vêm tentando cruzar a Passagem Noroeste, que liga o norte dos oceanos Atlântico e Pacífico. O que os intrépidos exploradores não conseguiram, a humanidade conquistou, pelo derretimento do gelo do Ártico, causado pelo aquecimento global. Breve, turistas, e mais perigosamente petroleiros, irão circular por uma área até o momento intocada.

As preocupações com a poluição já haviam surgido em rotas tradicionais como as costas dos EUA, o Mar do Caribe, Mediterrâneo e o Mar do Norte na Europa. Mas a Passagem Noroeste era protegida por sua enorme extensão congelada. Agora, com o derretimento, ela é navegável por diversos meses do ano. Em agosto do ano passado, a área de gelo que cobria o Círculo Ártico era 30% menor que há 25 anos. E a região registra uma das mais altas taxas de aquecimento do planeta.

Se as coisas permanecerem assim, em 2020 o transporte marítimo vai ser o maior emissor único de poluição na Europa, ultrapassando todas as fontes terrestres juntas

Bill Hemmings

Um navio médio de cruzeiro que transporta cerca de 3 mil pessoas, incluindo passageiros e tripulação, produz 80 mil galões de esgoto por dia. Também emite a mesma quantidade de dióxido de enxofre que 13,1 milhões de carros. A exposição a este gás pode causar asma e exacerbar outras doenças ligadas ao pulmão e ao coração.

“Se as coisas permanecerem assim, em 2020 o transporte marítimo vai ser o maior emissor único de poluição na Europa, ultrapassando todas as fontes terrestres juntas”, afirma Bill Hemmings, da Transport and Environment.

A poluição emitida pelos navios é constituída de diversos fatores. Primeiro, a água de lastro. Ela contém micróbios e microrganismos, além de vegetação e animais marinhos. Depois a do ar, óbvia. A poluição sonora afeta animais e mamíferos marinhos cujas audições sensíveis os deixam debilitados ou mesmo fazem com que percam rotas, caso das baleias.

A chamada água cinza, resultante da lavagem de utensílios e roupas, contém substâncias químicas perigosas, e mesmo minerais e metais. A água negra provém do esgoto. Há a poluição química de materiais como baterias ou substâncias químicas além de sua validade. E lixo sólido, de coisas como papel, papelão e alumínio.

Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

38 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *