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Planeta água: com ou sem gás?

Bebedouros públicos entram na lista de espécies ameaçadas de extinção

Sede? Sempre havia um bebedeouro por perto. Anne-Sophie Bost / AltoPress / PhotoAlto
Sede? Sempre havia um bebedeouro por perto. Anne-Sophie Bost / AltoPress / PhotoAlto

Sede? Sempre tinha um bebedeouro por perto. Ou uma torneira. Em último caso, bastava bater na porta e pedir que ninguém negava um copo d’água.

Não estou falando de um país comunista ou de alguma comunidade hippie. Isso acontecia aqui mesmo, quando ecologia era uma palavra que só aparecia no Globo Repórter.

Ficou claro que todo o marketing de saúde e pureza não combinavam com caminhões, navios e aviões cruzando o planeta e queimando combustível para levar água onde não falta.

Acho que esse desastre ambiental de engarrafar água, ao menos no Brasil, começou no meio dos anos 80. Até então, se você pedia água num restaurante, vinha uma jarrinha com água e gelo. Grátis. Eis que o garçom começou a responder “com ou sem gás?”

E lá fomos nós.

Os bebedouros também começaram a sumir. Quer água? Toma essa garrafinha de plástico xexelenta cujo lacre é motivo de piada. Ah, ela custa dez cruzeiros.

Surgiram várias marcas. Todas sem gosto, sem cheiro e sem cor. Exatamente como a água do bebedouro.

Toda uma indústria se criou para captar, engarrafar e transportar o líquido sem gosto, sem cheiro e sem cor. Por uma estranha coincidência, começou uma campanha para dizer que a água da torneira, até então potável, na verdade era potencialmente nociva e quiçá venenosa. Um caldo de micróbios e bactérias. Nem os cachorros deveriam tomar algo assim. Já a água engarrafada, essa sim deveria ser tomada a toda hora e em grande quantidade.

O marketing tomou conta. A água X vinha do degelo dos Alpes. A Y de uma fonte usada pelo próprio Leonardo da Vinci. Todas elas tinham uma pureza tão grande que seriam capazes de nos ofertar um bem estar divino, quando não curar as doenças mais incuráveis.

E os bebedouros cada vez mais raros.

Quando nem os Alpes davam conta da gourmetização, ainda tinha o subsolo de uma ilha no meio do Pacífico. Tudo para matar a sede do sujeito sem-noção com dinheiro sobrando.

Chegamos ao supra-sumo do capitalismo selvagem: cobrar caro por algo que pode ser obtido praticamente de graça. E mais: fazer com que as pessoas paguem para fazer uma garrafa de água vir do outro lado do mundo.

Até que uma empresa americana foi multada pelo governo: pegava a água da bica, fervia, colocava uns sais minerais e vendia ao respeitável público como sendo o néctar dos Deuses. Até os sem-noção com dinheiro sobrando começaram a se sentir um pouco otários. Também começaram a se dar conta de que a água da bica era testada pelo governo mas as águas minerais eram testadas pelos próprios fabricantes. E ninguém sabia nada sobre o efeito do engarrafamento em plástico, ainda mais que a garrafa viajava centenas de quilômetros no baú de uma caminhão ou até mesmo de avião e navio. Toda essa informação corria por conta do fabricante ou mais precisamente do seu departamento de marketing.

Em muitos lugares, a água engarrafada começou a ser mal vista. Ficou claro que todo o marketing de saúde e pureza não combinavam com caminhões, navios e aviões cruzando o planeta e queimando combustível para levar água onde não falta. O marketing bateu de frente com a lógica.

Por aqui, onde a lógica apanha de todos os lados, o máximo a que chegamos foi a uma lei que obriga os restaurantes a oferecer água filtrada de graça. (Experimente fazer isso e observe a boa vontade dos garçons.)

Talvez a solução seja colocar os bebedouros públicos sob a guarda do Ibama, junto com o mico-leão-dourado e a ararinha azul.

Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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Um Comentário

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  1. A legislação brasileira obriga as empresas engarrafadoras de água mineral natural a fazer análises periódicas através do Lamin – DNPM – Ministério de Minas e Energia. São analisados os aspectos fisicos- químicos assim como é feita a análise bacteriológica. A legislação brasileira é rígida e decerto há omissões de empresas que causam danos como no caso de Mariana – Samarco. Nos Estados Unidos a legislação é mais branda e permite-se qua as análises sejam feitas por laboratórios particulares e o que entra em jogo é a seriedade ou não da empresa que engarrafa. A punição para desvios de conduta empresarial é sempre severa! O mesmo ocorre no setor de alimentos e por falar nisso a Avisa, no Brasil, também fiscaliza as indústrias. As grandes empresas globais ( Ambev, Nestlé, Danone, Coca-Cola entre outras menos notáveis), iniciaram a prática de adição de sais minerais na água potável para reduzirem custos de produção e logística já que as fontes naturais não estão nas cidades e sim nas áreas rurais. A legislação permite! Muitas compram fontes nessas áreas mas engarrafam onde lhes convém pois a legislação também permite que se tenha um rótulo nacional mas dados têm que ser pertinentes às respectivas fontes onde são engarrafadas. Por outro lado, as águas da companhias públicas ,principalmente nas grandes cidades, recebem verdadeiro bombardeio de produtos químicos, como o Hidróxido de Alumínio (catalisador de moléculas de contaminantes),por exemplo, que está relacionado ao Mal de Alzheimer, além de muitos outros que deixam resíduos na água tratada e não podemos esquecer que a maioria das águas tratadas decorrem de reuso com adição de esgoto e tudo o que não presta. Outro aspecto relevante é que em muitas cidades a água pública não sai direto da empresa pública para as torneiras, antes são armazenadas em cisternas ou em caixas d´ água nos telhados e o cuidado com a limpeza periódica quase não existe,principalmente nos estabelecimentos que vendem comida , bares e restaurantes, onde se encontra todo tipo de insetos ,vírus e bactérias. ´Se negligenciam com os gêneros alimentícios não negligenciariam com a água armazenada no subsolo ou telhado? Em qualquer sociedade democrática em que a economia de mercado é praticada com competição há erros e acertos e cabe ao cidadão decidir o que irá beber ou comer e cabe às empresas primarem pela ética na produção de seus produtos e serviços. A fontes públicas deveriam ser muito bem cuidadas com analises frequentes da água para que os cidadãos tenham certeza de que não estão contaminadas, prática inexistente no Brasil.

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