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Mais chuva, menos despesas

Estudo da prefeitura do Rio indica que uso de água de chuva nas residências pode representar economia de até 25% na conta

Além de representar uma economia na conta, o uso de água de chuva nas residências reduz as chances de inundações nas cidades. Foto de Michal Fludra/NurPhoto
Além de representar uma economia na conta, o uso de água de chuva nas residências reduz as chances de inundações nas cidades. Foto de Michal Fludra/NurPhoto

Não se trata de chover no molhado: reaproveitar a água da chuva é cada vez mais importante em meio à crise hídrica mundial. E a população do Rio ganhou uma ferramenta importante para isso. A prefeitura da cidade lançou em dezembro o Mapa de uso de água de chuva, que mostra o potencial para coleta de chuva do município. O sistema permite que a população saiba o quanto é possível economizar, em sua casa ou seu edifício, com a implementação de um sistema que pode ser instalado nos telhados. Esta água pode ser reaproveitada para fins não potáveis, como regar plantas, limpar casas e carros e ser usada nas descargas. O projeto foi concebido pelo Rio Resiliente, departamento de resiliência da prefeitura, em parceria com o Instituto Pereira Passos (IPP) e o Pensa – Sala de Ideias, equipe de Big Data da prefeitura. De acordo com o estudo, o potencial de economia na cidade com o reúso da água de chuva é de 25%.

A gestão hídrica nos centros urbanos é um enorme desafio. Afinal, enquanto a demanda de água é crescente, a oferta por muitas vezes se mantém constante. O Rio de Janeiro confia 92% de seu abastecimento ao Sistema Integrado do Guandu, o que o torna uma cidade dependente de uma única fonte

Pedro Ribeiro
Analista de Resiliência Urbana do Centro de Operações Rio

Segundo Pedro Ribeiro, analista de Resiliência Urbana do Centro de Operações Rio e um dos criadores do aplicativo, as regiões da cidade que apresentam os melhores índices pluviométricos estão no entorno dos maciços da Tijuca e da Pedra Branca, tendo destaque a faixa que vai de São Conrado a Guaratiba, passando por Barra e Jacarepaguá. “Porém, isso não indica que todas as construções que ficam ali terão os melhores cenários para coleta. O potencial de uso de água de chuva varia de edificação para edificação, pois depende, além da pluviosidade, da área do telhado e do volume consumido. Uma residência com um telhado de grande área com poucas pessoas consumindo pode apresentar um alto potencial de uso de água de chuva, mesmo não estando na melhor região de pluviosidade da cidade. Outro fator que influencia no potencial de coleta é a área para armazenamento. Áreas muito densas podem impedir a implantação de grandes reservatórios e, mesmo tendo um alto potencial de coleta, a edificação pode não conseguir atingir uma grande porcentagem de abatimento do consumo”, explica ele. “É interessante entender que, de forma contra-intuitiva, em um dos bairros onde mais chove, o Alto da Boa Vista, o potencial total de captação de água da chuva é menor devido à pouca densidade de construções. De qualquer forma, considerando isoladamente uma residência, o potencial ali é alto”, completa Felipe Mandarino, geógrafo do IPP que também ajudou a criar o aplicativo.

Para o mapeamento, o Rio Resiliente utilizou os dados de chuva das 33 estações pluviométricas do Sistema Alerta Rio entre 2010 e 2015. Já o IPP, órgão de pesquisa e informação sobre a cidade do Rio de Janeiro, forneceu a base cartográfica dos telhados de todas as edificações da cidade do Rio, o que permitiu o cálculo de potencial de coleta de água de cada edifício. Ter acesso às informações é fácil. Basta acessar http://portalgeo.rio.rj.gov.br, e encontrar a casa ou edifício desejado no mapa 3D da cidade. Aí, é só verificar a intensidade de azul na área: quanto mais forte a cor, maior o potencial de coleta. Ao clicar em cima do telhado no mapa, é possível saber as médias mensal e anual, em litros, da capacidade de coleta de água na edificação. O aplicativo ensina ainda quais os quatro pontos fundamentais no processo de aproveitamento dessa água:  captação (feita por meio da canalização dos telhados), filtragem (um primeiro processo de limpeza da água, para eliminar as sujeiras mais grossas), descarte (jogar fora a água que jorra inicialmente é obrigatório, para limpar as sujeiras finas que ficam na água após o filtro) e armazenamento (em caixas d’água, cisternas ou bombonas, que precisam estar sempre desinfetadas). Lembrando que a água da chuva não possui o padrão de água potável, não podendo ser consumida como tal.

O Mapa de uso de água de chuva foi pensado com base na necessidade de se fazer uma transição de uma gestão compartimentada das águas da cidade para uma gestão integrada, a fim de regularizar o ciclo hidrológico. Isso porque as florestas realizam a regulação desse ciclo, minimizando os impactos que ocorrem com grandes eventos de chuva. Mas, quando construímos cidades sem a análise ambiental necessária, este ciclo fica desregulado, provocando diversos transtornos ao meio urbano. Em outras palavras: intervir com coleta de água de chuva em grande escala numa cidade do tamanho do Rio de Janeiro pode ser visto como uma analogia à interceptação vegetal realizada pela floresta. Quando chove na floresta, a água fica retida na cobertura vegetal (folhas, galhos e raízes) e é “liberada” de forma mais lenta para o escoamento. O mesmo pode ocorrer nos edifícios, sendo que neste caso a água da chuva é “liberada” de forma mais lenta na rede de drenagem.

“A gestão hídrica nos centros urbanos é um enorme desafio. Afinal, enquanto a demanda de água é crescente, a oferta por muitas vezes se mantém constante. O Rio de Janeiro confia 92% de seu abastecimento ao Sistema Integrado do Guandu, o que o torna uma cidade dependente de uma única fonte. O uso de água de chuva aparece então como uma nova fonte de água para fins não potáveis, aumentando a oferta deste item de primeira necessidade”, destaca Pedro Ribeiro. Ao mesmo tempo, a cidade sofre os impactos de grandes chuvas, que causam inundações e alagamentos. E todo esse aguaceiro poderia ser usado para muitos fins, garantindo não apenas mais segurança no abastecimento, mas também economia na conta de água da casa ou condomínio dos cariocas.

“Hoje se discute mundialmente a importância de as cidades reterem a água da chuva. Há exemplos como as cidades sensíveis à água, na Austrália, e as ‘cidades esponjas’, na China. Com essa iniciativa, o Rio de Janeiro poderá começar a caminhar nesse sentido”, observa Ribeiro. “Utilizar fontes alternativas de recursos naturais é o caminho para um desenvolvimento sustentável. Os telhados da cidade reservam grande potencial neste sentido, e esse novo produto se junta ao Mapa Solar Rio nos informando sobre como podemos contribuir não só sendo mais ecológicos como fazendo economia através do reúso de água de chuva e da geração de energia solar no topo das nossas edificações”, resume o diretor de Informações da Cidade, Luiz Roberto Arueira.

Escrito por Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha se completam. No trabalho e na vida. Juntos, têm umas quatro décadas de jornalismo. Ela, no texto, trabalhou no Globo por 17 anos, depois de passar por Jornal do Brasil, O Dia e Revista Veja, sempre cobrindo a cidade do Rio. Ele, nas imagens (paradas ou em movimento), há 20 anos bate ponto no Globo. O melhor desta parceria nasceu em novembro passado. Chama-se Pedro, e veio fazer par com a irmã, Maria.

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