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A culpa também é dos laguinhos

Sua fonte no jardim pode virar um problema na contabilidade do aquecimento global

No futuro, fontes famosas na região da Provence podem não ser mais consideradas tão belas inofensivas quanto parecem. Foto Norbert Scanella/AFP
No futuro, fontes famosas na região da Provence podem não ser mais consideradas tão inofensivas quanto parecem. Foto Norbert Scanella/AFP

Do grande quadro já sabemos: o aquecimento global é uma ameaça séria e imediata para a sobrevivência da humanidade. A ciência prova que nossa Terra está esquentando. Há mudanças que já observamos, como a elevação do nível do mar, secas, enchentes e a extinção de espécies, problemas causados pela ação humana, com suas enormes emissões de gases de efeito estufa.

De acordo com a Sociedade Americana de Meteorologia, existe uma possibilidade de as temperaturas globais subirem entre 3.5 e 7 graus centígrados, muito acima do patamar de dois graus, considerado seguro pelos cientistas. Fazemos pouco para evitar tal situação, e a comunidade planetária está fracassando ao tentar criar um regime de cooperação internacional contra a mudança do clima.

Lagos de menos de um metro quadrado respondem por cerca de 40% de todas as emissões de metano de águas em terra

Quase 20 países são responsáveis por 70% das emissões no planeta. Os esforços para combater o aquecimento, porém, precisam ser globais, por causa das consequências devastadoras para todos. O fato de as nações desenvolvidas serem responsáveis por grande parte do problema não significa que elas devam ser as únicas que necessitam cortar emissões.

A maior parte do aquecimento vem da queima de combustíveis fósseis, que respondem por mais de 70%  das emissões globais de gases de efeito estufa. Na grande conta, o restante vem do desmatamento, da indústria de alimentação de animais e da agricultura. Há campanhas em todo o planeta pela diminuição do consumo de carne, mas deixemos isso para um próximo post.

O desacordo entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento existe em torno de interpretações do princípio de “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”. Outro impedimento é a falta de consenso sobre a natureza e magnitude da ameaça de um mundo sob a mudança climática.

Este é o quadro macro. Mas o micro merece também grande atenção, e o que acontece nesta esfera parece não estar sendo levado em consideração por legisladores, formadores de opinião e mesmo ONGs mais visíveis e com amplos fundos para contribuir. E, ainda, pelos relatórios do Painel Intergovernamental da Mudança do Clima, da ONU.

Aqui entram em cena os pequenos lagos. Pequenos mesmo, naturais ou não, e incluem mesmo um tanque ou fonte em seu quintal ou em jardins urbanos, e há uma imensa quantidade deles. O aumento de temperatura acelera a mudança do clima ao reduzir a quantidade de CO2 (dióxido de carbono) neles armazenados e fazendo crescer o metano que liberam.

Cientistas esquentaram artificialmente alguns destes lagos em 4 a 5 graus centígrados, em um período de 7 anos, para estudar os impactos das emissões e as taxas de metabolismo. As mudanças observadas após o primeiro ano se tornaram “amplificadas” a partir deste ponto, segundo o trabalho feito por estudiosos das universidades de Exeter e Queen Mary, em Londres.

Depois dos 7 anos, a capacidade de um laguinho absorver CO2 tinha caído pela metade, e o metano liberado quase dobrou. Grandes e pequenos lagos cobrem cerca de 4% da superfície terrestre (excluindo áreas cobertas por gelo), mas são desproporcionalmente grandes fontes de liberação de CO2 e metano na atmosfera.

Lagos de menos de um metro quadrado respondem por cerca de 40% de todas as emissões de metano de águas em terra. “O impacto comparativo do metano na mudança do clima é 25 vezes maior que aquele do carbono em um período de 100 anos”, diz Yvon-Durocher.

“Dada a contribuição substancial de pequenos lagos para estas emissões, é vital entender como podem responder à mudança do clima”, diz Gabriel Yvon-Durocher, do Instituto de Ambiente e Sustentabilidade de Exeter. “Nossas descobertas mostram que o aquecimento pode alterar fundamentalmente o equilíbrio de carbono de pequenos lagos no correr de anos, reduzindo sua capacidade de absorver CO2 e aumentando suas emissões de metano”, afirma o cientista, um dos autores do estudo.

É importante compreender e prever mudanças do clima, e por isso se torna necessário entender muitos feedbacks positivos (alterações em cascata) que afetam o armazenamento de carbono e as emissões, assim como os processos de aquecimento e resfriamento.

Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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3 Comentários

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  1. Não ficou muito claro se esses laguinhos, onde foi observada a redução de CO2, são apenas os que tem água parada, ou os que tem um chafariz (o que aumenta muito a evaporação e, portanto, vão precisar de reposição dessa água), ou os que tem água corrente (por exemplo, os que tiverem o fornecimento de água corrente e um “ralo” que leve esta água de volta para um rio). Isso pode fazer muita diferença, não acha?

  2. A matéria é interessante pelo aspecto inusitado do problema, mas um pouco vaga na medida em que reproduz os termos da pesquisa científica sem esclarecer os aspectos envolvidos na captação do CO2 e na produção de metano, deixando o leitor sem dados para entender o processo e, consequentemente, o impacto do tema.

  3. A matéria deixa em frágil a interpretação de que lagos artificiais são prejudiciais e não especifica os termos da pesquisa original, pois um estudo de 7 anos – a meu ver – deve ter sido muito controlado e específico, algo que é incabível para generalizar para todos climas e microclimas do planeta. Ou seja, os resultados da pesquisa em Londres se aplica somente às características de lá.

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